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Jorge Coli comenta o livro autobiográfico do arquiteto Albert Speer, relacionando o ideal de perfeição e a vontade de simplificação presentes na ideologia nazista, e sua reverberação na cena política brasileira atual.

how to quote

COLI, Jorge. O mistério do fascínio nazista. O Terceiro Reich segundo Albert Speer. Resenhas Online, São Paulo, ano 19, n. 227.04, Vitruvius, nov. 2020 <https://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/19.227/7946>.


Creio ser a quarta vez que leio esse catatau em letras miúdas, intitulado Por dentro do III Reich, de Albert Speer, o arquiteto e depois ministro do armamento de Hitler. Não se pode confiar nesse livro que, mesmo sem exagero, procura dar uma visão positiva do autor. Esconde, por exemplo, que Speer expulsou 75000 judeus e que sabia do Holocausto.  O que me interessa, porém, não é a imagem que Speer constrói de si mesmo, imagem de um tecnocrata apolítico, ou do "bom nazista", já que assim foi chamado, mas o modo como ele narra suas relações na ascensão de Hitler, e as intrigas internas da corte em volta do Fuhrer.

“Talvez ainda apareça alguém que pense de um modo simples. Atualmente, o pensamento está muito complicado. Um homem inculto, sem base, solucionaria esta situação de uma maneira muito mais fácil, justamente por não estar ainda corrompido. Esse homem disporia também da energia suficiente para concretizar suas concepções simples." Essa observação, pragmática em seu fundo, parecia-nos poder ser aplicável, precisamente, a Hitler”.

Hubert Lanzinger, cartaz para o 6º Congresso do Partido Nazista, 1936
Foto divulgação

 

Esta é uma citação feita por Speer de seu professor de arquitetura Heirich Tassenow, formulada em 1931. Ela mostra um sintoma das democracias cansadas em tempo de crise: a complicação de seus mecanismos, que parecem pedir um processo de simplificação capaz de evitar as sutilezas da inteligência. Ideias simples e enérgicas de um homem ignorante para resolver o sentimento de derrocada, ou decadência.  Neste momento, no Brasil, vivemos algo do gênero.

Rodrigo Gonçalves Camacho, retrato de Jair Bolsonaro sobre um estranho mapa do Brasil, feito com cápsulas de balas
Foto divulgação

A imagem abaixo é a de uma piscina pública construída por Heinrich Tessenow em Berlim, no ano de 1930. Esse interior, perfeitamente ordenado por uma perspectiva tão precisamente ortogonal, traduz o anseio pela ordem num mundo caótico. O rigor quadriculado dispõe o espírito para o ordenamento simples, sem dúvidas nem discussões. Arquitetura que concentra a utopia do mundo a ser construído.

Heinrich Tessenow, piscina pública em Berlim, 1930
Foto divulgação

A modernidade, simplificadora em seu projeto de reformar a humanidade, revela aqui suas contaminações autoritárias. Não é inocente que o art-déco estivesse na moda do tempo.

“Creio que foi naquele período que minha mãe viu um desfile das SA [“Sturmabteilung”, ou Divisão tempestade, organização paramilitar do partido nazista] nas ruas de Heidelberg. Sentiu-se também impressionada em ver aquela demonstração de ordem, em um tempo de caos, o senso de energia que irradiava daquele desfile, em uma ocasião de desânimo geral. Inscreveu-se no partido, sem ter ouvido um discurso”.

Desfile dos SA. As camisas marrons características foram adotadas porque as sobras da primeira guerra mundial eram baratas
Foto divulgação

"Pela primeira vez tive uma ideia do que significava a palavra mágica "arquitetura" no regime de Hitler". Arquitetura, palavra mágica. Artes das artes, porque ela interfere de modo direto na vida dos homens. Organizar o mundo como um arquiteto organiza um edifício, um urbanista organiza uma cidade. Com ordem. Com rigor.

Speer se aproxima de Hitler graças a seus talentos de arquiteto. Com menos de 30 anos, via uma grandiosa vida futura para si.

“Depois de anos de esforços vãos, eu estava aos vinte e oito anos possuído de muita vontade de trabalhar. Tal como Fausto, eu venderia minha alma por uma obra de grande vulto. E tinha encontrado o meu Mefistófeles. Esse Mefistófeles parecia não menos absorvente do que o criado por Goethe”.

Albert Speer colocando a águia alemã no topo da torre, maquete para o pavilhão Alemanha na Exposição Universal de Paris, 1937
Foto divulgação

Speer diz que “não havia de modo nenhum estilo do Führer” para a arquitetura. Não sei de modo exato o que ele entende por estilo, mas havia sim, ao contrário do que diz, traços bem característico dessa arquitetura: a grandeza (a nova chancelaria, que deveria ficar pronta em 1950, tinha uma sala de trabalho de 960 m²) com contrastes de escala fenomenais, criando efeitos esmagadores.

Cena de "O triunfo da vontade", filme de Leni Riefenstahl sobre o 6º Congresso do Partido Nazista, no Zeppelinfeld, imensa tribuna construída por Speer em Nuremberg. A organização da cerimônia coube a Speer
Foto divulgação

Parece clara, ao contemplar a foto acima, a estratégia humana – ou antes, desumana – que preside à tal concepção. Escrever, como fez Speer, “estaria equivocado quem buscasse, no caso de Hitler, um estilo arquitetônico com base ideológica”, é um absurdo que salta aos olhos. Não há arquitetura que transpire mais ideologia do que essa.

O urbanismo de Speer/Hitler tinha o sentido do grande eixo destinado a paradas suntuosas, e a vistas vertiginosas. Inspirado na pompa do século 17, nas grandes perspectivas de Versalhes. Algo que está presente no espírito moderno do tempo:  pode ser reenc
Foto divulgação

Ao longo do livro, é evidente que Speer, com sua cultura sofisticada, embora muito bem aninhado no covil nazista, sente-se deslocado nesse meio que ele percebe como inculto: "na verdade, era uma lenda o interesse da elite do partido na arte musical. Na generalidade, os seus representantes eram tipos vulgares, anódinos, com muito pouca disposição à musica clássica, à arte e à literatura". Salvava-se, diz Speer, apenas Frick, o ministro do Interior. Compreende-se a facilidade com que as estratégias nazistas podiam impressionar esse público ignaro, ávido por seguranças e grandezas. Citado por Speer, Hitler dirige um discurso aos pedreiros e operários diversos dessas grandes construções: "- Por que sempre o maior? Faço-o para infundir nos alemães a confiança neles mesmos". 

Speer prossegue, numa análise engenhosa: "Não se deve atribuir única e exclusivamente à forma de governo essa tendência ao gigantismo. O enriquecimento rápido concorre para isso tanto quanto a necessidade de se exibirem as próprias forças, sejam quais forem as razões. No entanto, o afã de Hitler no exagero das dimensões ia além daquilo que confessou aos trabalhadores. O tamanho máximo tinha por objetivo glorificar sua obra, aumentar a confiança em si mesmo. A finalidade de se erguerem aqueles monumentos era indicar a existência de uma pretensão ao domínio do mundo, antes mesmo de o próprio Hitler atrever-se a confessá-lo aos seus mais íntimos colaboradores."

Hitler só em 1937 mencionaria sua ambição de um Império Germânico, que iria da Noruega ao norte da Itália.

Vista da maquete com o imenso domo que deveria ser o ponto de referência da nova Roma, batizada de Germânia. A maquete era disposta em mesas que corriam, podiam se afastar, e permitiam ver não apenas do alto, mas também em perspectiva. O arco do triunfo,
Foto divulgação

Speer desenvolve o que ele chama de Teoria dos valores das ruínas de uma obra. Os edifícios deveriam ser construídos pensando-se como, num futuro remoto, eles se transformariam em ruínas. Era preciso que o material fosse a pedra nobre, e que as alvenarias fossem muito mais encorpadas do que o necessário, para que sobrevivessem seus volumes roídos pelo tempo.

Quando Speer mostrou essas maquetes a seu pai, também arquiteto, este comentou: “Os senhores estão completamente loucos”.

Trechos do livro

“Consideraria Hitler o Ocidente seu verdadeiro inimigo? Sentiria no íntimo alguma simpatia ou solidariedade pelo regime de Stálin?”

Belmonte, charge com Hitler e Stalin
Imagem divulgação

* * *

Citando Hitler:

“Se o povo alemão sucumbir nesta luta, será por ter sido muito fraco. Assim, não terá resistido á prova que lhe foi imposta pela história, e nesse caso o seu destino só poderá ser o do aniquilamento". O nazismo parece ter um componente suicida muito forte, como em O crepúsculo dos deuses”.

Max Bruckner, projeto para o final de “O crepúsculo dos deuses” no Festival de Bayreuth, 1894
Foto divulgação

* * *

“Um escritor americano disse de mim que eu amava mais as máquinas do que os seres humanos. Não lhe falta razão”.

* * *

Esta é uma impressionante profecia de Hitler, citada por Speer:

“ao contrário do que assevera o comunismo, o futuro não será a igualdade a que aspiram os comunistas, mas acontecerá realmente o contrário, a saber: quanto mais evoluir a humanidade, mais diferenciados serão os resultados, e, portanto, a administração do que se obtiver irá, forçosa e logicamente, para as mãos dos que obtiverem rendimentos...”

* * *

“Ora, enquanto em circunstâncias normais dar as costas à realidade  é uma atitude corrigível pelas opiniões das pessoas que nos rodeiam, pela zombaria, pela crítica, pela perda de confiança, no Terceiro Reich não havia tal corretivo, sobretudo quando alguém pertencia às classes superiores. Ao contrário, assim como se multiplica uma imagem em uma sala de espelhos, cada mentira que alguém fizesse a si mesmo multiplicava-se também nas imagens de um mundo fantástico, quimérico, sem nenhuma relação com a realidade exterior. Os espelhos repetiam sempre a imagem de meu rosto, a única imagem que eu podia ver refletida neles. Nenhuma visão estranha perturbava a uniformidade daqueles cem rostos, sempre os mesmos, a uniformidade do meu eu multiplicado”.

Cartaz da SA, onde impressiona a identidade pela semelhança dos dois rostos
Imagem divulgação

* * *

Quando recebe a notícia de que não se fariam mais prisioneiros no fronte russo, Speer se desconsola, mas não por razões humanas:

“Hitler afirmara que haveria uma desforra mil vezes mais sangrenta.

Fiquei consternado, vendo o modo como nos prejudicávamos a nós mesmos. Hitler dispunha de centenas de milhares de prisioneiros. Ora, havia meses que pensávamos como tapar uma brecha, avaliada no mesmo número de pessoas, em nossos efetivos de mão de obra”.

* * *

Cena cinematográfica:

“Quando nos sentamos para cear com Hitler, no vagão-refeitório, não vimos que na outra bitola estava parado um trem de carga. Nossa mesa estava sendo olhada pelos soldados que enchiam um dos vagões de transporte de gado, soldados alemães derrotados, famintos, alguns feridos que vinham do leste. Um Hitler furioso viu aquela cena sombria, a dois metros de distância, mandou que baixassem a cortina das janelas do vagão onde estávamos ceando. Não lhes dirigiu nenhuma saudação, não manifestou a menor reação”.

* * *

Sobre a "noite dos cristais", grande ataque público da SA aos judeus, marcada pela quebra de vitrines, comentário de Speer:

“o que mais me perturbou foi ver despedaçadas as vidraças, o que feria meu sentido burguês de ordem”.

* * *

Erro grosso de tradução

Numa passagem, o tradutor brasileiro confunde a palavra gravura com gravação musical (disco). Depois, continua tendo que se adaptar ao sentido errado que deu no início, transformando Käthe Kollwitz numa compositora, ou numa intérprete!

“Em meu quarto havia uma gravação de Käthe Kollwitz: La carmagnole, a canção cantada pelo povo durante a Revolução Francesa. No disco ouvia-se a turba delirante, bailando em torno da guilhotina, e o choro de uma mulher prostrada no chão. Deprimido pela desesperada situação, prenúncio do fim da guerra, fui dormir com o espírito perturbado com o que ouvira no disco. Iria o povo, desenganado e indignado, sublevar-se contra seus dirigentes e matá-los, como se ouvia naquela gravação?”

Käthe Kollwitz, Die Carmagnole, 1901.
Foto divulgação [The British Museum]

Aqui, a tradução em inglês,  da edição americana:

Trecho do livro “Inside the Third Reich”, de Albert Speer. Tradução para o inglês do original “Erinnerungen”
Imagem divulgação

Não há mulher chorando no chão, mas é preciso lembrar que Speer cita de memória, tempos depois de ter visto a gravura.

* * *

nota

NE – texto publicado originalmente no blog Amável leitor: arte e cultura, em 17 de julho de 2020 <https://bit.ly/3pZeCRD>. Reprodução autorizada pelo autor.

sobre o autor

Jorge Coli é historiador da arte e professor do IFCH Unicamp.

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resenha do livro

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