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reviews online ISSN 2175-6694

abstracts

português
Esta resenha levanta os principais pontos de dois livros da atualidade, com reflexões marcadas pela erudição histórica, teórica e historiográfica de seus autores – o primeiro sobre a materialidade na arquitetura e o segundo sobre a crítica arquitetural.

english
This review raises the main points of two books of actuality, with reflections marked by the historical, theoretical and historiographic erudition of their authors – the first on materiality in architecture and the second on architectural criticism.

français
Ce compte-rendu relève les points principaux de deux livres actuels, avec des réflexions marquées par l'érudition historique, théorique et historiographique de leurs auteurs – le premier sur la matérialité de l'architecture et le second sur sa critique.

how to quote

ANGOTTI-SALGUEIRO, Heliana. Arquitetura – da materialidade à crítica, em dois livros da atualidade. Sobre as reflexões de Antoine Picon e Hélène Jannière. Resenhas Online, São Paulo, ano 19, n. 222.02, Vitruvius, jun. 2020 <https://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/19.222/7783>.


Detalhe da estrutura do Estádio Olímpico de Pequim, de Herzog & de Meuron, 2008
Foto divulgação

Em tempo de confinamento, podendo sentir satisfação ao menos de viver entre livros e de exercer um “métier de inteligência” (1), volto-me para obras publicadas recentemente enviadas por colegas amigos, que se acumulam sobre a mesa de trabalho, e seleciono duas em que os autores procuram pensar a arquitetura, ainda que por caminhos de reflexão diversos. Refiro-me aos livros de: Antoine Picon, La matérialité de l’architecture, publicado em 2018, que em breve sairá em versão ampliada em inglês pela University of Minnesotta Press, e ao de Hélène Jannière, Critique et architecture. Un état des lieux contemporain, publicado no final de 2019. Uma leitura mais atenta evidencia que a erudição da narrativa é comum a ambos, o que me permite juntá-los nessa resenha, levantando alguns pontos da novidade e complexidade histórico-teórica do primeiro, e da densidade historiográfica e crítica do segundo.

Antoine Picon, engenheiro e arquiteto pela École Polytechnique e École Nationale des Ponts et Chaussées é doutor em história pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Professor de história da arquitetura e da técnica na Graduate School of Design da Universidade de Harvard, além de diretor de pesquisas na École des Ponts et Chaussées, é presidente da Fondation Le Corbusier em Paris desde 2013. Publicou numerosos artigos e livros sobre as relações entre o espaço construído, as ciências e as técnicas, histórias da arquitetura e da engenharia, planejamento e a cultura digital, entre os quais se destacam: Architectes et ingénieurs au siècle des lumières (1988), L’invention de l’ingénieur moderne – l’École des Ponts et Chaussées 1747-1851 (1992, originalmente sua tese de doutorado), De l’espace au territoire (1997), La ville: territoire des cyborgs (1998), Les saint-simoniens: raison, imaginaire et utopie (2002), Culture numérique et architecture (2010), Ornement – the politics of arhitecture and subjectivity (2013), La ville des réseaux, un imaginaire politique (2014) e Smart Cities: a Spatialised Intelligence (2015, com edição francesa de 2013). Foi também curador de grandes exposições na França, organizando catálogos que marcaram época, como L’art de l’ingénieurconstructeur, entrepreneur, inventeur, de 1997 (publicado pelo Centre Georges Pompidou de Paris), uma verdadeira enciclopédia sobre o tema.

La matérialité de l’architecture, de Antoine Picon. Marselha, Parenthèses, 2018. A capa mostra detalhe da estrutura do Estádio Olímpico de Pequim, de Herzog & de Meuron, 2008
Imagem divulgação

Nesse seu mais recente livro, La matérialité de l’architecture, Antoine Picon completa a reflexão iniciada em dois outros anteriores consagrados à cultura digital e ao ornamento: Digital Culture in Architecture, an Introduction for the Design Professions, publicado também em francês, e Ornement – the Politics of Architecture and Subjectivity, com edição original inglesa e versão francesa de 2016 (em preparação em português pela Edusp) – sobre esse livro, ver minha resenha no Vitruvius, em janeiro de 2015 (2).

A noção de materialidade para Antoine Picon não designa os materiais em si, nem a técnica da sua aplicação, mas sim a relação que mantemos com a própria ideia de matéria e com a concretude das coisas, e o que isso pode significar no processo de criação do projeto. Se a interpretação da materialidade evoluiu desde Vitruvius, a sua transformação permite leituras diferentes sobre seu papel ao longo da história da arquitetura para que possamos compreender melhor os desafios atuais ligados à revolução digital. Ao aprofundar a definição de materialidade, o autor busca revisitar sob um novo olhar não só a história da arquitetura e suas ligações com a “experiência do tempo”, como também a complexidade do mundo físico presente, e nossa experiência física e emocional em relação a ele.

Esse livro inscreve-se num contexto de renovação epistemológica de uma chamada “virada material”, que parte do interesse pela história da construção, gestos, práticas, materiais, enfim, de uma relação mais próxima com o que acontece no canteiro de obras (3), mas vai mais longe. E ainda, na contramão de Kenneth Frampton, “defensor de uma volta à tectônica e à poética da construção em oposição a uma arquitetura digital”, em livro de 1995, Antoine Picon afirma que a materialidade da arquitetura não se liga apenas à arte de construir, mas à esfera dos sentidos e da comunicação, muito além do estrito plano técnico e construtivo.

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O segundo livro que analiso na sequência – Critique et architecture. Un état des lieux contemporain, é de Hélène Jannière, arquiteta, e historiadora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Ela foi professora em escolas nacionais de arquitetura de Paris (La Villette e Val de Seine), antes de ingressar na Université de Rennes 2, onde permanece dando sequência às suas pesquisas sobre periódicos, história, teoria e crítica em arquitetura, e história do urbanismo da segunda metade do século 20. Fundou e coordena a rede internacional de pesquisas Mapping Architectural Criticism (4) desde 2015, e seu interesse pela crítica intersecta outros campos de investigação: a história do planejamento urbano na França a partir de 1945 e a paisagem urbana, em especial desde os anos 1950 até ao final dos anos 1970. A este respeito, explora vários meios de comunicação social, como revistas de arquitetura e a imprensa, mas também reportagens televisivas, tendo se interessado, recentemente, por questões de demolição e urbanismo. É autora de Politiques éditoriales et architecture “moderne” – l’émergence de nouvelles revues en France et en Italie, 1923-1930 (2002, originalmente sua tese de doutorado) – obra de referência e de análise histórico-crítica sobre revistas, do final do século 19 aos modernos, em que se detém especialmente sobre L’Architecture d’Aujourd’hui, Casabella, Domus e Cahiers d’Art; além desse livro e de vários artigos e contribuições em obras coletivas, assinou com outros autores os seguintes títulos: Michel Ragon, critique d’art et d’architecture (2013), Architectural Periodicals in the 1960s and 1970s – Towards a Factual, Intelectual and Material History (2008), e dirigiu em 2009 o número especial “La critique en temps et lieux” do Cahiers de la Recherche Architecturale et Urbaine (5).

No seu livro mais recente, Critique et architecture. Un état des lieux contemporain, a autora levanta as diferentes concepções do papel da crítica, os tipos de crítica, a opinião do jornalismo arquitetural, o julgamento e as tomadas de posição sobre a arquitetura, analisando discursos publicados na Europa e nos Estados Unidos, além de submeter a teoria e a história da crítica aos pontos de vista da sociologia e da história da arte, desenvolvendo uma reflexão sobre os critérios da crítica arquitetural, seus atores e referências intelectuais. Ao fazer um inventário historiográfico discorrendo sobre o estágio atual da crítica, Hélène Jannière convida-nos, em retrospectiva, a ler textos fundadores que informam sobre os ideários dos redatores das revistas de arquitetura e engenharia, considerando também a importância de crônicas “menores” que levem a refletir sobre o papel dos arquitetos na cultura do mundo contemporâneo.

A complexa reflexão de Antoine Picon sobre a materialidade expressiva da arquitetura

La matérialité de l’architecture é um livro sintético, embora complexo – o autor o reconhece (6) – contudo, sua leitura demonstra que foi escrito por quem e para quem conhece profundamente e ama a arquitetura, e sabe experimentar as sensações de se estar diante e dentro dela; e, sobretudo para quem se compraz tanto com sua contextualização na história, quanto com novas posturas epistemológicas a seu respeito, bem como com imagens de construções que a “materializam”. Aliás, as 68 imagens são muito bem escolhidas e articuladas entre si e em relação às reflexões dos capítulos, ao longo das 138 páginas do livro. Este começa com uma introdução intitulada “Penser l’architecture”, em que pensar a arquitetura implica, um movimento constante entre “a obstinação silenciosa da matéria e o desejo de animá-la até que ela fale (p. 10). Ou, como se lê na contracapa: “a arquitetura trabalha a matéria a fim de torná-la expressiva” – é esta tensão o principal foco do autor – trata-se de fazer uma interpretação da materialidade que permita uma releitura de momentos da história da arquitetura, chegando até aos desafios atuais da revolução digital.

Com base no binômio matéria/expressão, Antoine Picon propõe uma interpretação da arquitetura à luz da noção de materialidade, vista como a relação que temos com fenômenos sensíveis: materiais e objetos. Relação que releva de uma construção tanto antropológica quanto cultural, mudando segundo os períodos históricos, as sociedades e suas arquiteturas e o que se escreveu sobre elas. Entre “as palavras e as coisas” a arquitetura passa a exprimir, após a Renascença, o que por definição não saberia “falar” sem ela (7). Ligada às representações do seu tempo, a arquitetura coloca em ordem a matéria, e busca torná-la expressiva através do ornamento, seja ele tradicional ou contemporâneo. Causar efeitos, produzir impressão: os teóricos do século 18, entre outros citados, consideraram a noção de “caráter” da arquitetura (Nicolas Camus de la Mézières, Le génie de l’architecture, ou l’analogie de cet art avec nos sensations, 1780). A ambição de “animar” a massa de pedras, tijolos, concreto e aço ocupa um primeiro plano na démarche arquitetural, por paradoxal que seja a distância entre a arquitetura, as palavras e o movimento.

Após a referida introdução para pensar a arquitetura, as reflexões vão se articulando nos cinco capítulos do livro de Antoine Picon, que se intitulam: “De la fabrique à l’expression”; “Architecture et langage: une rencontre inachevée”; “Animation de la matière et matérialité”; “Histoire de l’architecture et régimes de matérialité”, e por fim, “Architecture et matérialité à l’ère numérique”, uma demonstração atualíssima de como os códigos tradicionais de fazer e sentir a arquitetura mudaram radicalmente na era digital.

Do denso conteúdo do livro, escolhi comentar mais especialmente pontos do primeiro capítulo e do último, além de incluir algumas afirmações extraídas dos demais. Os três primeiros capítulos: “Do fazer à expressão” –, e na sequência, “História e linguagem: um encontro inconcluso” e “Animação da matéria e materialidade” são os mais teóricos do livro, como observa Pierre Chabard em sua resenha (8). O primeiro capítulo engloba o conjunto dos saberes e práticas pelos quais a arquitetura “põe ordem na matéria”, destacando, por exemplo, os diferentes sistemas de medida e proporções na arquitetura, sobre os quais numerosos tratadistas a partir da Renascença especularam, referindo-se à tradição da busca do “número de ouro” na literatura teórica e prática, e em retrospectiva da Alta Antiguidade ao Movimento moderno. Antoine Picon refere-se às proporções da arquitetura que se impõem no espírito do conceptor que trabalha a matéria (ou os elementos da construção), e no do espectador que deve perceber sua harmonia. Levantando uma série de obras sobre a relação proporcional entre a arquitetura e o corpo humano, ele discute ideias de Francesco di Giorgio Martini no final do século 15 (como a analogia entre as proporções da ordem jônica e as do corpo feminino) chegando até ao Modulor de Le Corbusier.

Páginas de livro, com dois projetos de épocas distintas: Jacques-Germain Soufflot, fachada da Igreja Sainte-Geneviève, 1757; Le Corbusier, desenho do sistema DOM-INO, 1929 [La matérialité de l’architecture, de Antoine Picon, p. 26-27]

A partir do século 18, um outro principio dessa “colocação de ordem na matéria” é o cálculo, a estrutura, o que não significa que não havia seu perfeito conhecimento e emprego nos séculos anteriores – das igrejas góticas às obras primas da engenharia construtiva nas obras de Filippo Bruneleschi e outros, os exemplos se sucedem na reflexão entre o tratamento da estrutura (sustentação) e do ornamento (decoração).

A análise vai do racionalismo estrutural de um arquiteto e teórico do século 19, como Eugène Viollet-le-Duc, às posições de um historiador de arte de meados do 20, como Erwin Panovsky que relaciona a organização espacial e construtiva das catedrais góticas (ou sua estrutura) à argumentação da filosofia medieval escolástica. Porém, a capacidade de uma estrutura de se situar próxima do espectador pela simples impressão visual e a sensação interna que preexistem à linguagem, – a título de exemplo, a Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright, cuja “capacidade expressiva da estrutura” estava de acordo com uma “visão modernista e heróica do corpo” –, é bem diversa das inovações estruturais digitais do pensamento contemporâneo (p. 31-33). O fato de uma construção encarnar um fato imaterial, um conteúdo cultural ou um momento da história, exemplifica diferentes formas de experimentação e compreensão que os homens têm das formas arquitetônicas.

Sob abundantes notas eruditas, Antoine Picon discute com historiadores e teóricos conhecidos do século 20 que refletiram sobre algumas dessas relações (para reter apenas alguns nomes, Rykwert, Frampton, Eiseman), comentando obras, detalhes construtivos, materialidade, e sensações que elas nos trazem.

Diego de Sagredo, Medidas del Romano, 1526, perfil de molduras de ornamentos com cabeça humana, maneira de evocar a expressividade que a decoração confere à arquitetura La matérialité de l’architecture, de Antoine Picon, p. 45

Do segundo capítulo, Architecture et langage: une rencontre inachévée, retenho apenas algumas ideias, justamente, a questão do encontro inconcluso dos textos que os arquitetos escrevem nos seus tratados e livros, com o que “dizem” seus edifícios. O autor se guarda de propor o lugar comum de considerar a arquitetura como linguagem, relação tratada por muitos teóricos em seus discursos críticos, como John Summerson (a “linguagem clássica”), Anthony Vidler (arquitetura parlante), e Bruno Zevi (“linguagem moderna”) – e, em contraponto à essas e às posições dos pós-modernos, Antoine Picon defende o argumento que aproxima a arquitetura das artes plásticas e não do discurso (9).

Das relações complexas entre arquitetura e linguagem, volta e meia ele situa o ornamento, que dos tempos barrocos de profusão aos de sua condenação (Adolf Loos), até a atualidade de sua volta (10) tão celebrada hoje (Farshid Moussavi, Michael Kubo, Robert Levit e o próprio Antoine Picon), revela, porém, que “a tensão entre a estabilidade opaca da matéria e a luz da linguagem continua presente” (p. 49).

No terceiro capítulo o autor introduz a noção de animação da matéria e materialidade, “ideal arquitetural no cruzamento da inércia concreta dos objetos e do tangível élan vital das pessoas” (11). Não é possível resumir a densidade das posições discutidas sobre as variações da materialidade ao longo dos séculos de uma sociedade a outra, concepções filosóficas e culturais, representações científicas do mundo, formas de utilização dos materiais nas construções e nas coisas que nos rodeiam. Retenho, porém, uma consideração de Antoine Picon:

“talvez não exista uma alegoria mais marcante deste duplo processo de explorar coisas tangíveis e de nos descobrirmos a nós próprios do que a ficção imaginada pelo filósofo Etienne Bonnot de Condillac, líder da escola sensualista francesa do Iluminismo, no seu Traité des sensations de 1754: trata-se de uma estátua dotada de inteligência mas privada da faculdade de sentir. Ao conferir-lhe sucessivamente o olfato, a audição, o paladar, a visão e finalmente o tato, o filósofo descreve o seu despertar progressivo para o mundo das sensações e das ideias. Cada sentido traz a sua parcela de descobertas, mas a verdadeira mudança ocorre quando a estátua adquire o tato, descobre a existência de obstáculos externos que lhe resistem e percebe ao mesmo tempo que tem um corpo a interagir com eles. A inércia e a impenetrabilidade da matéria conduz finalmente a uma consciência plena de si como sujeito ligado ao mundo e distinto dele” (p. 68).

No quarto capítulo, “História da arquitetura e regimes de materialidade”, Picon segue um caminho já aberto há várias décadas pelos historiadores (e em particular por François Hartog e antes dele Reinhart Koselleck) quando eles se referem à relação que um determinado período nutre com a experiência do Tempo, com os "regimes de historicidade". Através do prisma dos seus “regimes de materialidade”, Picon propõe uma releitura da história da arquitetura ocidental do ponto de vista da materialidade, ou seja, olhando para a forma como ela designa, ordena e caracteriza a matéria, ao mesmo tempo em que fornece o enquadramento que organiza a relação do homem com o mundo material. Entre tantos dados reveladores da erudição de suas análises, o autor destaca que “o estatuto atribuído ao ornamento, um dos principais meios de animação da matéria disponível para a arquitetura, reflete as questões em jogo que se atualizam” em cada um dos momentos da história. As dimensões da materialidade, da animação da matéria, da tentação da linguagem e das mudanças do ornamento convidam a uma outra história global da arquitetura a ser escrita não mais a partir de questões como programa e estilo (p. 91-96).

O último capítulo, o mais longo, menos teórico e extremamente interessante por sua atualidade, é sobre “Arquitetura e materialidade na era digital” – nele são evocadas as transformações que se produziram pela informática nas relações entre materialidade, arquitetura e linguagem. A partir de um histórico dos usos e aplicações dos computadores, entre os quais as mudanças no ensino e na prática da arquitetura a partir dos anos 1990, o autor defende que "a arquitetura não foi “desmaterializada” pelos écrans (telas, monitores) – pelo contrário, por eles revela-se uma outra materialidade, ou seja, uma nova relação com o mundo sensível que encontra sua expressão tanto na forma como olhamos para o que nos rodeia, visão esta informada por ferramentas digitais, como por técnicas, por exemplo, o desenho feito no computador” (12).

O autor nos alerta ainda que a materialidade tem a ver com nossa percepção do mundo físico, com a mudança dos nossos códigos tradicionais visuais e a percepção acelerada do espaço. Assim, por exemplo, ele observa que “com a tecnologia digital, estamos cada vez mais sensíveis a certos efeitos de luminosidade e textura que as ferramentas gráficas tradicionais não nos permitiam dominar, daí certas características do ornamento contemporâneo com texturas, conotações táteis e hipnóticas “que recobrem inteiramente os edifícios, em vez de se concentrarem em pontos nevrálgicos da composição, como o ornamento tradicional” (p. 120).

Edifícios projetados no computador: H2O Expo, Interactive Museum, Lars Spuybroek, Neeltje Jans Island, 1994-97; Kunsthaus, Peter Cook e Colin Fournier, Graz, Austria, 2003; Loja de departamentos Selfridges, Future Systems, Birmingham, 2003 [La matérialité de l’architecture, de Antoine Picon, p. 98-99]

Nesse último capítulo do livro La matérialité de l’architecture, Picon refere-se à crise da concepção estrutural que se acompanha da reinvenção do ornamento nas acepções citadas, ornamento muitas vezes inseparável da busca da eficácia energética, ambiental (projetos de Philippe Rahm) ou no uso de materiais que estocam energia, de formas que se remetem a uma evolução dos próprios materiais, como o desenvolvimento das nanotecnologias, ou especialmente pela elaboração de materiais com propriedades estruturais integradas à substância da própria matéria. Assim, arquitetos testam arranjos da matéria criando formas novas, como a “rede” do estádio de Pequim (em detalhe na capa do livro), que substitui os códigos tectônicos tradicionais.

Toda a questão é que as formas operatórias tradicionais da profissão do arquiteto se transformaram radicalmente, embora a maioria das escolas de arquitetura seja ainda marcada por uma linha conservadora, observa Picon, e não tenha percebido (ou aderido) aos novos códigos do mundo que nos cerca: a “material computation”, os blobs, o parametrismo, a fabricação digital e a vasta dinâmica das tecnologias da informação e da comunicação (p. 100-102). E sem esquecer a necessária busca de abertura disciplinar pelas biotecnologias, neurociências, ciência dos materiais, o que não significa de forma alguma, para o autor, deixar de lado a importância da história, da pesquisa e da argumentação escrita, ou a ligação da teoria ao projeto, do conhecimento acadêmico ao pragmatismo da profissão (14).

Ao comentar posturas e reações às novas tecnologias, Antoine Picon observa que

“em vez de tentar fazer julgamentos rápidos sobre o impacto da tecnologia digital, como se estivéssemos em um processo, é provável que seja melhor tentar decifrar os lineamentos desta diferente materialidade e, sobretudo, medir a extensão das ligações entre ela e as mudanças que nos afetam atualmente. Podemos não nos ter tornado cyborgs, nem aqueles "pós-humanos" que alguns exaltados profetas da era digital imaginaram (Robocop ou Terminator), mas somos certamente diferentes do que éramos antes, o que leva a arquitetura a renovar-se a si própria” (15).

O autor apresenta pressupostos teóricos diversos de vários filósofos, de pensadores contemporâneos das vanguardas digitais – de Gilles Deleuze e Félix Guattari à Michel Callon e Bruno Latour, seguidos de Tim Gold, Richard Sennett, Lars Spuybroek, Neil Gershenfeld, Spyros Papapetros… Comenta inovações que certos arquitetos trouxeram na área ambiental, na termodinâmica, na evolução do estatuto do projeto.

Entre as colocações relativas à cultura digital e à arquitetura na contemporaneidade, Picon levanta críticas à “corrente performalista”, a das formas que se tornam performance, próprias “de um mundo material cheio de ocorrências e acontecimentos” que trouxe a star architecture globalizada ou os “eventos arquiteturais”, como o Museu Guggenheim de Bilbao, de Frank Gehry, em 1997 (seguido por tantos outros) – “edifício símbolo do começo da starização dos arquitetos na cena mundial dos anos 1990”, que será um dos temas da crítica arquitetural contemporânea do livro de Hélène Jannière que analisarei em seguida.

Finalizando seu livro, Antoine Picon coloca muitas questões da atualidade e se pergunta sobre “a pertinência dos desafios estéticos e simbólicos” de certas arquiteturas, em meio a tantas situações de urgência econômica e social em que vivemos, citando “a multiplicação das favelas e dos campos de refugiados”. E entre suas reflexões conclusivas, volta a ressaltar o lado material e expressivo da arquitetura que, afinal, se não tem “por vocação última salvar o mundo, contribui a dar um sentido à existência humana” (p. 132-133) (16).

Hélène Jannière e os discursos críticos: por uma história intelectual da arquitetura e dos arquitetos

Os temas do recente livro da arquiteta e historiadora Hélène Jannière, editado no final do ano passado, Critique et architecture. Un état des lieux contemporain (Crítica e arquitetura – a situação atual, ou o "estado da arte" contemporâneo), desenvolvem-se em torno de um balanço e análise dos discursos e da teoria da crítica arquitetural, da discussão de controvérsias passadas e presentes sobre os múltiplos tipos e definições da mesma, em periodização que abarca o pós-guerra aos anos 1960, os anos 1970-1980, e os anos 1990 em diante –, fazendo uma revisão do que está acontecendo hoje, sob uma visão epistemológica e metodológica da historiografia da crítica, relativizando as constatações da crise que se instalou em torno dela nos últimos quarenta anos.

Capa do livro Critique et Architecture. Un état des lieux contemporain, de Hélène Jannière. Paris, Éditions de la Villette, 2019

A autora recusa uma definição normativa da crítica e faz um inventário dos mais representativos textos críticos, em ambos os lados do Atlântico, no âmbito de múltiplas tradições disciplinares e intelectuais. Solicitada a definir o que é a crítica em uma entrevista sobre seu livro, Hélène Jannière assim se pronunciou:

“Não há uma resposta simples a esta questão, ela depende do ambiente e da área cultural. Na França, a noção de crítica está frequentemente ligada à tradição da crítica de arte - mesmo que o meio arquitetônico tenha a tendência de negar qualquer ligação com ela. Pensa-se no comentário, na avaliação das obras, numa forma de mediação e de interpretação. Imagina-se uma prática, e não um texto de alcance necessariamente teórico ou histórico, como é geralmente o caso na Itália, por exemplo. Nos Estados Unidos, a expressão ‘crítica arquitetônica’ pode abranger a maior parte dos discursos teóricos, desenvolvidos, em particular desde os anos 1970, nos meios acadêmicos e nas suas revistas. O âmbito é então muito vasto. Por conseguinte, é difícil dar uma definição inequívoca de crítica. Através dos meus vários projetos de pesquisa a respeito, tenho me interessado pela pluralidade de atores, meios de divulgação, instituições e cenáculos em que se desenvolvem as críticas” (17).

Estudiosa de revistas e de suas políticas editoriais desde seu doutoramento em história sob a orientação do filósofo Hubert Damisch, na École des Hautes Études en Sciences Sociales em 1999, Hélène Jannière analisou os mais importantes periódicos do século 20 no período entre guerras, especialmente na França e na Itália (18), e continuou aprofundando e diversificando suas pesquisas em torno da crítica na cena internacional, sempre dando importância às “conjunturas particulares que dão forma às configurações da crítica, ligadas a determinados períodos históricos e a diferentes contextos culturais”, – como destaca no número especial do Les Cahiers de la recherche architecturale et urbaineLa critique en temps et lieux, que ela dirigiu com Kenneth Frampton em 2009, um entre muitos de seus estudos sobre a questão (19), alguns citados ao longo desta resenha. Professora na Université de Rennes 2 (20), ela coordena a rede internacional de pesquisa Mapping Architectural Criticism (na sequência de um projeto sobre “Cartografia da critica arquitetural, séculos 20 e 21”) desde 2015, tendo organizado encontros internacionais bianuais sobre o tema desde então.

Capa de Les Cahiers de la recherche architectural et urbaine, dez. 2009, sobre tempos e lugares da crítica, dossiê que precede a reflexão de Hélène Jannière aprofundada no livro Critique et architecture. Un état des lieux contemporain, 2019

O pequeno livro Critique et architecture. Un état des lieux contemporain, com 153 densas páginas sem imagens, compõe-se de introdução, sete capítulos, epílogo e bibliografia seletiva, incluindo ainda no final mais de vinte biografias dos principais críticos e historiadores citados. Os capítulos compõem-se de duas ou quatro subpartes, facilitando a compreensão e a leitura. Cobrindo quatro decênios da história da crítica da arquitetura do século 20, cada período se caracteriza por tendências dos autores, e dúvidas e queixas a seu respeito – a autora faz um inventário dos diferentes discursos, convidando-nos a ler alguns textos fundadores, como os de editores de revistas de arquitetura e engenharia que possam esclarecer a própria prática da arquitetura, as ferramentas, e o papel dos arquitetos no mundo da sua cultura. Desta forma, “desdobra-se um amplo espectro de concepções da crítica arquitetural, e levanta-se a questão da sua dupla origem, nas teorias arquitetônicas e no julgamento das produções estéticas” (quarta capa do livro).

Passo a considerar algumas partes do conteúdo do livro, especialmente do primeiro e do último capítulos, sintetizando temas e subtemas dos demais, até as ideias do Epílogo. Embora corra o risco de reduzir a densidade do conteúdo a comentários parciais, meu objetivo é despertar a curiosidade dos leitores para sua riqueza epistemológica e conhecimentos sobre a história da crítica em arquitetura. O primeiro capítulo “A crítica em processo”, mostra justamente os “processos” a que se submeteu a crítica, ou seja, dos discursos pessimistas e acusadores ao pico do interesse por ela a partir dos anos 1980, referindo-se às fronteiras incertas entre crítica, midiatização e promoção profissional dos arquitetos, às queixas sobre a fraqueza conceitual de posições teóricas, e à baixa participação e mesmo ausência dos arquitetos-práticos no exercício da crítica, bem como a legitimidade dos não-arquitetos para a praticarem.

Nos anos 1990, apareceu o fenômeno da starização da arquitetura, tema do primeiro subtítulo do capítulo – “Midiatização, star system e starchitecture”, em que se pergunta sobre a função da crítica no mercado globalizado, pois esta volta-se para a consagração profissional e simbólica de arquitetos cujas obras são inscritas em um processo de marketing urbano, de fabricação da imagem de uma cidade por uma obra, como foi o caso de Bilbao e o museu Guggenheim de Frank Gehry, inaugurado em 1997 (também citado por Antoine Picon), que Jannière destaca como o início da referida iconic architecture, entre tantos outros – mais recentemente o Louvre Dubai de Jean Nouvel – “eventos arquiteturais” marcados por uma “estratégia de visibilidade” e fortalecidos pelo “jornalismo arquitetural”.

Nos subtemas do capítulo são tratadas também a “ruptura” entre críticos e arquitetos, a interdependência entre crítica e teoria (especialmente a ausência da teoria na crítica) que leva à questão central da autonomia da crítica em relação à arquitetura considerada como disciplina, e os momentos de controvérsia e aliança entre história, teoria e crítica, cujas fronteiras são difíceis a estabelecer. Sobre a referida “ruptura”, a autora mostra que franceses lamentaram a supremacia do discurso crítico na Itália e na Espanha nos anos 1970-1980, onde os arquitetos (entre eles Paolo Portoghesi, Manfredo Tafuri, Vittorio Gregotti, Oriol Bohigas) eram redatores ou diretores de grandes revistas. Ela faz um inventário de posturas divergentes e das controvérsias de um cenário marcado por figuras como Peter Collins, François Chaslin, Bernard Huet, Josep Maria Montaner, Vittorio Gregotti, Ernest Nathan Rogers, Reyner Banham, Michel Ragon...

Reunião da equipe da redação da revista Casabella, anos 1960. Da esquerda para a direita, o segundo é Luigi Dodi, depois vem Aldo Rossi, Ezio Cerutti, Marco Zanuso, Ernesto Nathan Rogers, e Gilles Dorfles (?) [© Eredi Aldo Rossi]

Entre os temas comentados estão as revistas profissionais e os contextos políticos e ideológicos em que se enquadravam seus porta-vozes. Nesse caso, Hélène Jannière mostra que “alguns discursos são espelhados pela nostalgia de uma época dourada da crítica nos anos 1960 e 1970, cuja figura tutelar seria o arquiteto prático, teórico e engajado, em geral um diretor de revista”, como Vittorio Gregotti, Manfredo Tafuri ou Peter Eisenman, cujas posições eram ligadas a objetivos sociais e posturas políticas. Ela levanta também diferentes concepções do papel da crítica na história recente, acompanhando os movimentos arquitetônicos ou “inventando-os” – como Kenneth Frampton e o seu regionalismo crítico – “produzindo teoria para alimentar a disciplina, assumindo uma função política e social, avaliando edifícios ou situações urbanas para fazer avançar a qualidade da produção arquitetônica, e atuando como interlocutores entre a disciplina e o público em geral” (21).

A autora retoma as críticas que emergem dos “novos contextos, novas mídias” e redistribui papéis e legitimidades, comentando o estado da crítica em um mundo neoliberal. Levanta interrogações dos debates de 1980 a 2010, em que a “critical architecture” se globalizou, ou quando “a crítica negativa praticamente não existe mais” por uma série de razões, entre elas as lógicas de funcionamento e financiamento das revistas de arquitetura que travam a independência da crítica. Relata posições que afirmam “o fracasso da crítica tradicional” pela absorção de novas formas de crítica nas políticas de comunicação, a crítica livre online ou a diluição da crítica nas políticas de mediação da arquitetura no domínio do espetáculo, do star system, a crítica enfim, independente da avaliação da qualidade arquitetural, e de porta-vozes oficiais, e a das instâncias da grande imprensa, relativa aos museus e exposições (p. 25-31).

Depois de tantos níveis da análise da “crítica em processo” desse primeiro capítulo, no segundo são discutidas as “fronteiras” e as várias “tipologias” de escritos, os enfoques disciplinares da crítica, e a questão da “má reputação do jornalismo arquitetural” na França, ao contrário da Alemanha e dos Estados Unidos, em que se destacaram críticos não-arquitetos como Ada Louise Huxtable, Jane Jacobs e Lewis Mumford (historiador ligado aos temas da cidade, cultura urbanística e técnicas), portavozes da “crítica pública” e não da “crítica teórica”.

Segue-se capítulo sobre o “Julgamento” – o estético e o especifico à crítica da arquitetura, cujo “dilema dos critérios” internos ou externos à arquitetura, são discutidos por historiadores-críticos, entre eles Peter Collins, cujos livros (Changing Ideals in Modern Architecture, e Architectural Jugement) são amplamente analisados por Hélène Jannière. Collins que destacou os critérios para a crítica arquitetural como fundamentalmente diversos dos da crítica literária e da crítica das demais artes visuais – postura discutida por Vincent Scully, para quem “a arquitetura não é uma arte isolada” (p. 50).

Merece registro a posição de Collins, em minha opinião, quando ele lembra como exemplares da melhor crítica de arquitetura do século 19 (tão mal compreendida pelos modernos, eu diria…), a de revistas do tempo, como a Révue Générale de l’Architecture de César Daly, e The Builder, justamente porque não faziam julgamento estético, mas discutiam os projetos ligados a seus contextos institucionais, aos debates profissionais e enquanto obras públicas. Permito-me observar ainda nesse parêntese pessoal, que essas revistas só vieram a ser lidas nos anos 1970-1980 com o movimento de revival e compreensão da arquitetura eclética (22), primeiramente nos Estados Unidos e depois na França e demais países europeus, levantando níveis de crítica das relações entre a arquitetura, instituições, atores e público.

O quarto capítulo intitula-se simplesmente “Crises”, referindo-se ao estado de insatisfação relativo à crítica ou as posturas negativas partilhadas também pela crítica de arte, com o relato de vários momentos, desde o começo do século 20, colocados numa perspectiva histórica, mais uma vez em torno das relações arquitetura, arquitetos, público e críticos, analisando-se posições dos principais porta-vozes e das revistas da cena internacional. Depois do período entre guerras, seguem-se as posições das revistas inglesas e americanas de 1945 a 1968, incluindo a crítica relativa à crise do Movimento moderno, a discussão sobre o ensino da arquitetura, as relações entre crítica, teoria e história, as posições da semiótica dos anos 1960-1970. Muitos nomes e revistas são lembrados, entre os quais os que escreviam na AMC Architecture, Mouvement, Continuité, e na Itália a postura de Manfredo Tafuri a favor e contra a “crítica engajada e operatória” (no contexto da sua crítica às ideologias), quando destaca a importância da crítica ser ligada a um momento histórico determinado (Théories et histoire de l’architecture, e “Il progetto storico”, introdução à La sfera e il labirinto).

Os últimos temas do capítulo referem-se aos anos 1980, quando se dá a “intensificação das discussões sobre a crítica, que podem ligar-se a uma ‘volta da arquitetura’ depois do fim do Movimento moderno, das utopias ambientais ou tecnófilas dos anos 1970 [...] e do declínio da contestação urbana e social desse decênio”; e depois, nos anos 1990, à “abertura do ensino e discursos da arquitetura às ciências sociais e à análise política do espaço construído, à disciplina ou seja, a volta ao projeto e aos seus instrumentos específicos, como o desenho” (p. 68).

Destacam-se na França as posições críticas publicadas na revista Le Visiteur em 1995, que retomava as conferências e debates que aconteceram em 1990-1991 na Société Française des Architectes reunindo grandes arquitetos e jovens pesquisadores hoje consagrados (23) – que eu tive a oportunidade de assistir quando fazia doutoramento em Paris, anos antes. Jannière cita ainda entre os inúmeros exemplos das tendências da época, aquelas levantadas por Carlo Olmo em resenha sobre Ignasi de Solà Morales, (“Topografie della critica”, in Casabella, n. 629, dezembro 1995). Em ensaio publicado em 2014 sobre a questão das crises da crítica, a autora já considerava o tema entre os anos 1960 a 1990 (24), mas nesse capítulo ela estende e aprofunda a análise até a contemporaneidade.

O quinto capítulo, “Crítica da arquitetura e arquitetura crítica”, reitera os debates em torno dessa última noção nos anos 1980 a 2000. “O projeto de arquitetura, forma e instrumento da crítica” é tema de abertura do capítulo, destacando-se que “para a geração da volta à cidade dos anos 1970 e 1980, o projeto constituiu um instrumento de crítica histórica e teórica a respeito da arquitetura do Movimento moderno” (p. 71). Entre as observações sobre a critical architecture registra-se que ela converge de certa forma com “as propostas de Bruno Zevi desde 1963, em nome de uma crítica a ser feita com instrumentos do arquiteto: desenhos, fotografias e maquetes, em detrimento da crítica escrita” – na busca de um método para seus estudantes de Veneza para fazerem a pesquisa histórica com esses instrumentos, ou seja, “expressar a crítica com formas (e o contra-projeto) e não com palavras” (p. 70 e seguintes).

O significado na contemporaneidade da palavra crítica em arquitetura apresentaria duas vias, uma com enfoques teóricos, como atividade filosófica, ou seja, mais textual, e outra a história crítica no sentido das produções estéticas ambas merecem no capítulo reflexões retrospectivas (sobre architecture writing, por exemplo), antes de abrir a discussão para a teoria crítica, critical architecture e post critical architecture, começando pelas revistas do meio acadêmico americano do pós-estruturalismo a partir de 1970 (Oppositions e Assemblage), até teses e colóquios internacionais dos anos 2000 sobre a critical architecture (Michael Hays, entre os porta-vozes desse debate).

O capítulo 6 intitula-se “À luz da crítica de arte” – passo rapidamente sobre os subtemas: “Definir a crítica como um gênero no começo do século 20”, “Definições contemporâneas ou funções da crítica” e “História da crítica de Lionello Venturi e a crítica arquitetural”, em que são exploradas as posturas operadas pela história da arte e a estética. Algumas relações são feitas com a crítica da arquitetura percebida como uma prática e sua ligação desde o século 19 com o surgimento das revistas profissionais (da descrição à interpretação do projeto), ou com o conjunto dos discursos teóricos, históricos e críticos sobre a arquitetura, envolvendo os atores da crítica.

O sétimo ou último capítulo, “Através do prisma da sociologia e da história”, interessa certamente a um grupo mais amplo de pesquisadores dessas áreas afins, que devem ler essa resenha além dos arquitetos, por isso me detenho sobre algumas das questões tratadas. Hélène Jannière observa que, a partir dos anos 60, dois novos objetos emergem das pesquisas sobre a crítica de arte na sociologia da arte e na história social da arte: o primeiro referente aos atores da crítica e ao interesse pelo métier do artista (paralelamente, nos Estados Unidos, surgem os estudos sobre a profissão de arquiteto e as revistas), e o segundo sobre a recepção ou a fortuna crítica das obras.

A virada definitiva veio não da história, mas da sociologia da arte. Jannière discute livros de Cynthia e Harrison White (Canvases and Careers. Institutional Changes in French Painting World, 1965, tradução francesa em 1991), Raymonde Moulin (Le marché de la peinture en France, 1967; e L’artiste, l’institution et le marché, 1992), Nathalie Heinich (Du peintre à l’artiste. Artisans et académiciens à l’âge classique, 1993) – as duas últimas autoras renovando a crítica sob a perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu.

Justamente, a crítica de arte e a de arquitetura vistas sob o prisma da sociologia de Pierre Bourdieu compreendem temas centrais do capítulo: ”A aplicação da teoria dos campos culturais à arquitetura”, e especialmente os “Suportes e atores: revistas e biografias intelectuais”. O primeiro tema gravita em torno das trajetórias profissionais dos arquitetos mostrando, por exemplo, que seu capital social e simbólico familiar influencia escolhas e posicionamentos (Christian de Montlibert, L’Impossible autonomie de l’architecte: sociologie de la production architecturale, 1995); em relação aos mecanismos da crítica e avaliação, volta-se aos trabalhos de Hélène Lipstadt sobre a imprensa arquitetural, que mostram a importância da publicação para consagrar a elite profissional no campo da arquitetura, as revistas profissionais se impondo como ‘instâncias de distinção’ de arquitetos que participavam de concursos, a luta pelo poder simbólico no âmbito dos campos artísticos e intelectuais, a divulgação na mídia profissional legitimando posições e o acesso às encomendas (p. 101). A autora observa que ”o problema da aplicação da noção de campo de Bourdieu na produção da arquitetura, vem da sua própria natureza, ao fato de ser ao mesmo tempo arte e profissão: a mais social das artes e a mais estética das profissões” (p.103).

Para desenvolver o subtítulo “Escrever a história da crítica de arquitetura”, Jannière lança mão de um tema de sua especialidade, a história das revistas de arquitetura que permite esclarecer as trajetórias dos atores e seus ideários, que por sua vez se autonomizam como tema de estudo nas biografias intelectuais, especialmente a partir dos anos 2000 – ela cita como exemplos, sob a orientação de Carlo Olmo no Politécnico de Turim, monografias sobre críticos-historiadores (Michela Rosso sobre John Summerson, Paolo Scrivano sobre Henry-Russel Hitchcock e o estilo internacional, Roberto Dulio sobre Bruno Zevi); enquanto na França, destacam-se teses sobre a historiografia da crítica, como a de Antonio Brucculeri sobre Louis Hautecoeur, publicada em 2007. Hélène Jannière embora analise a importância desses trabalhos observa a “necessária inclusão da crítica jornalística, da produção anônima e “ordinária” de cronistas, como procederam os historiadores da arte no começo dos anos 1980 (eu lembraria o interesse pelos “segundos da classe” da micro-história), pleiteando a diversidade da crítica para escapar da dicotomia entre crítica teórica e crítica jornalística: “pensar um conjunto de textos, da história da literatura à da arte, e da história das obras à dos textos que as acompanham” (como escreveram Dario Gamboni e Jean-Paul Bouillon), afim de abrir novas perspectivas e novas tipologias de crítica, através “do estudo de atores, instrumentos e mídias, inscritos em conjunturas históricas, meios e espaços públicos de debate” (p.106) – todo um programa de pesquisa e metodologia.

O subtítulo final do capítulo é “Marcos para uma história da crítica de arquitetura” em que a autora volta a citar Lionello Venturi que deu um lugar, ainda que marginal, à arquitetura, em sua History of Art Criticism (1936) marcada pelo pensamento idealista de Benedetto Croce; ela levanta também outras posições do debate italiano à época, como a de Gustavo Giovannoni, que considerou componentes não-artísticos da arquitetura, como o contexto urbano e múltiplos fatores dos contextos econômicos e sociais da produção arquitetônica (a encomenda, a construção, o programa). Além deste autor, são analisadas em retrospectiva, posições em torno das relações crítica e história, de Manfredo Tafuri, Renato De Fusco, Gian Carlo Argan, Paolo Portoghesi e Bruno Zevi. A autora conclui que atualmente o interesse historiográfico ainda não resultou em uma história da crítica que considere o conjunto de atores, mídias e textos dos críticos e o universo de suas referências intelectuais, enfim a uma história inscrita em uma conjuntura histórica e cultural abrangendo todos os níveis (p.112).

No epílogo, “A possibilidade de uma história”, Jannière cita inicialmente Pierre Francastel na assembleia da AICA em 1958, quando este evoca “as questões inéditas que a arquitetura contemporânea colocava aos historiadores da arte e da arquitetura”, e a necessidade de se coletar o corpus de documentos da crítica para escrever a história da arquitetura do presente, então inexistente, sendo os artigos de revistas uma das principais fontes. Hoje, além da necessidade de se ir além deste tipo de documentação, pergunta-se não só o que trouxe a crítica à história, mas consideram-se os aportes da história da crítica à historiografia da arquitetura (p.113).

Recapitulando constatações levantadas ao longo do livro, constata-se que a crítica da arquitetura ficou sempre em segundo plano diante da profusão de trabalhos da crítica de arte a partir do começo do século 20, além de ter sido submetida a crises e indefinições constantes; as dificuldades da autonomia da arquitetura como disciplina se dão por sua dependência aos campos social, urbano, econômico e político frente aos quais se confrontam seus atores na prática profissional.

O referido “état des lieux” ou balanço das concepções e debates da crítica arquitetural segundo H. Jannière, a ser feito a partir de tradições intelectuais e culturais diversas, com enfoques próprios a cada país, não pode se limitar mais apenas à exploração dos levantamentos dos periódicos de arquitetura, nem se restringir à história intelectual das biografias das grandes personalidades e a seus escritos, consagrados pela historiografia. À história das ideias e teorias em arquitetura deve-se associar, além dos textos eruditos, a abertura a novos corpora documentais, como as crônicas cotidianas, as polêmicas e controvérsias, inserindo o “ordinário” da crítica no campo da pesquisa; e interagir com o espaço público da discussão e as reações e interesses pelos arquitetos e arquiteturas. E finalmente, a terceira abertura seria a disciplinar – a autora analisou epistemológica e metodológicamente as fronteiras e relações entre a crítica da arquitetura e a crítica da arte, mas sugeriu que outros caminhos possam ser também abertos para se construir uma história intelectual da arquitetura e dos arquitetos.

E Hélène Jannière conclui que escrever a história da crítica é

“abrir-se ao exame dos meios culturais, intelectuais e institucionais em que a crítica se desenvolveu, confrontá-los com a análise dos escritos, rastrear noções e suas origens no campo arquitetônico e em outras disciplinas, permitindo superar o conflito entre uma história interna das ideias (história das teorias arquitetônicas) e uma história externa da crítica (conjunturas históricas, revistas, suportes, atores)” (p. 118).

O livro fecha-se com abundantes Anexos: trezentas e setenta e oito Notas ao texto, ricas em referências incontornáveis aos temas discutidos, trinta e sete Biografias dos principais críticos e historiadores citados, e uma Bibliografia seletiva que classifica obras em “crítica de arte e história da crítica de arte”, “crítica de arquitetura”, “números de revistas”, “arquitetura e publicações”, “sociologia da arte e da arquitetura”. Leituras que nos ajudam, certamente, à busca de evasão nesses tempos sombrios de incertezas.

Congressistas do grupo internacional de críticos por ocasião do Primeiro Congresso Extraordinário da AICA, em Brasília, 1959
©Aviation News Picture [Acervo Sweeney (FR ACA AICAI PRE SWE009), Inha – Coleção Archives de la critique d’art.]

notas

1
A expressão é de Lucien Febvre em “Vivre l’Histoire”, aula inaugural à Ecole Normale Supérieure, em plena segunda guerra mundial, durante a ocupação alemã em Paris (1941), publicada com outros textos do autor no clássico: FEBVRE, Lucien (1952). Combats pour l’Histoire. Paris, Armand Colin, 1992.

2
ANGOTTI-SALGUEIRO, Heliana. A arquitetura contemporânea ou a sedução da superfície ornamentada. Resenhas Online, São Paulo, ano 14, n. 157.04, Vitruvius, jan. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/14.157/5398>.

3
A exemplo deste interesse, a grande exposição L’Art du Chantier – construire et demolir du XVIe au XXe siècle, e o excelente catálogo homônimo organizado por Valérie Nègre (curadora), na Cité de l’Architecture et du Patrimoine, em Paris, de novembro 2018 a março 2019. A propósito, entre os autores estão: Antoine Picon (“Les grands travaux: de grandes ‘machines’ entre mythe fondateur et progrès”) e Hélène Jannière (“La démolition en chantier: de la collone Vendôme aux grands ensembles”), autora do livro que também analiso mais adiante nessa resenha.

4
Mapping Architectural Criticism. 20th and 21st Centuries: a Cartography La Critique Architecturale 20e et 21e Siècles: une Cartographie ANR Project ANR-14-CE31-0019-01, ANR Rennes 2 Université < https://mac.hypotheses.org>.

5
Cahiers de la Recherche Architecturale et Urbaine, n. 24/25 (La critique en temps et lieux), Paris, Éditions du Patrimoine, dez. 2009.

6
Cf. as observações do próprio Antoine Picon na seguinte conferência: PICON, Antoine. Conférence La matérialité en Architecture. Strasbourg, École Nationale Supérieure d'Architecture de Strasbourg, 16 out. 2018 <https://bityli.com/FWrcH>.

7
A respeito, ver a resenha: NIVET, Soline. L’architecture entre pratique, langage et connaissance. D’Architectures, n. 267, Paris, nov. 2018, p. 40-44 <https://bityli.com/ErVtj>.

8
CHABARD, Pierre. Insaisissable matérialité: Antoine Picon, La matérialité de l’architecture, Marseille, Parenthèses, 2018. Images Re-vues, Hors-série 7, 08 dez. 2019 <https://bityli.com/6RiSp>.

9
NE – Anthony Vidler no portal Vitruvius: VIDLER, Anthony. Redefinindo a esfera pública. Sobre o concurso para a reconstrução do local do World Trade Center. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 054.00, Vitruvius, nov. 2004 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.054/523>.

10
Cf. NIVET, Soline. L’architecture entre pratique, langage et connaissan (op. cit.).

11
CHABARD, Pierre. Insaisissable matérialité: Antoine Picon, La matérialité de l’architecture, Marseille, Parenthèses, 2018 (op. cit.).

12
Cf. PICON, Antoine. La matérialité de l’architecture. Seção Tribune Libre – espace dédiée aux idées, à l’opinion des acteurs d’architecture. Archistorm, Paris, mai. 2018 <https://bityli.com/25WeF>. Ver também comentários do autor sobre esse capítulo de seu livro na seguinte entrevista realizada em Harvard: CELANI, Gabriela; SPERLING, David. A arquitetura dá significado à vida. Entrevista com Antoine Picon. Entrevista, São Paulo, ano 19, n. 074.02, Vitruvius, jun. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.074/7014>.

13
Ver também: PICON, Antoine. Ornement et subjectivité – de la tradition vitruvienne à l’âge numérique. Le Visiteur, n. 17, nov. 2011, p. 65-75; 176-180; ANGOTTI-SALGUEIRO, Heliana. A arquitetura contemporânea ou a sedução da superfície ornamentada (op. cit.).

14
Segundo outro texto de Antoine Picon sobre os novos debates em torno do ensino de arquitetura hoje, há o exemplo de design schools americanas, como a GSD de Harvard, integradas com o resto da universidade, e cuja convergência é reforçada por duas questões cruciais em torno do projeto, “a urbanização maciça do planeta e a busca de um desenvolvimento sustentável”. Ver: PICON, Antoine. La recherche par le projet, au-delà et au coeur de l’architecture? In COHEN, Jean-Louis (org.), L’Architecture entre pratique et connaissance scientifique. Paris, Éditions du Patrimoine/Centre des Monuments Nationaux, 2018. Em conferência já citada, Picon assinala afirma que “não dá para imaginar uma escola de arquitetura sem um historiador [...] pois afinal, ser arquiteto é saber refletir sobre as diferenças”. PICON, Antoine. Conférence La matérialité en Architecture (op. cit.).

15
Cf. PICON, Antoine. La matérialité de l’architecture. Seção Tribune Libre – espace dédiée aux idées, à l’opinion des acteurs d’architecture (op. cit.). Sobre a temática do cyborg, cf. livro precursor do autor: PICON, Antoine. La ville territoire des cyborgs. Besançon, Les Éditions de l’Imprimeur, 1998.

16
Ver também comentários de Antoine Picon nessa linha na entrevista: CELANI, Gabriela; SPERLING, David. A arquitetura dá significado à vida. Entrevista com Antoine Picon (op. cit.).

17
DIDELON, Valéry. L'architecture et (les) (le) la critique (entrevista com Hélène Jannière). D’Architecture, n. 279, Paris, mar. 2020. Grifos da autora da resenha.

18
Cf. o livro incontornável sobre periódicos: de JANNIÈRE, Hélène. Politiques éditoriales et architecture “moderne”. L’émérgence de nouvelles revues en France et en Italie, 1923-1930. Prefácio de Jean-Louis Cohen. Paris, Editions Arguments, 2002.

19
Nessa revista, ver o seguinte texto, fundamental com rica bibliografia a respeito do tema: JANNIÈRE, Hélène. La critique architecturale, objet de recherche. Cahiers de la Recherche Architecturale et Urbaine, n. 24/25 (La critique en temps et lieux), Paris, Éditions du Patrimoine, dez. 2009, p. 121-140 <https://bityli.com/kNVpF>.

20
É bom lembrar que na cidade de Rennes se situa um centro importante de documentação e estudos sobre a crítica, os “Archives de la Critique d’Art”, com coleções da mais alta relevância sobre o tema.

21
Tradução livre da resenha sobre o livro de Hélène Jannière: Re­lire les cri­tiques. Critique et architecture, un état des lieux contemporain. Tracés, n. 7 (Ruines à l'envers), abr. 2020 <https://bityli.com/l8jeQ>.

22
A autora destaca os trabalhos da historiadora americana Hélène Lipstadt sobre esses periódicos (referência que todos nós, estudiosos do século 19, lemos no final dos anos 1980): Pour une histoire sociale de la presse architecturale: la Révue Générale de l’Architecture et César Daly (1840-1888), tese de doutorado, EHESS, 1979. Mais adiante, H. Jannière lembrará que C. Daly, figura central da crítica da arquitetura oitocentista, foi ignorado nos anos 30 por Lionello Venturi (p. 108) e por muitos outros críticos. Ver também de H. Lipstadt, a pesquisa Architecte et ingénieur dans la presse. Polémique, débat, conflit. Paris, CORDA/IEHAU, 1980.

23
HUET, Bernard. Les enjeux de la critique (p. 88-97); COHEN, Jean-Louis. Entretien avec Maurice Culot (p. 98-107); LUCAN, Jacques. Jusqu'où la critique doit-elle exacerber l'individualisme des architectes? (p. 108-119); CHASLIN, François. Un état critique (p. 120-129). Seção Quatre témoignages sur la critique d’architecture. Le Visiteur. Ville, territoire, paysage, architecture, n. 1, Paris, Société Française des Architectes, outono 1995. Este número traz a lista dos temas e conferencistas da Tribune d’histoire et d’actualité de 1987-1995.

24
Ver JANNIÈRE, Hélène. La mauvaise presse de la critique. In PAQUOT, Thierry. Ville, architecture et communication. Les essentiels de la revue Hermès. Paris, CNRS Éditions, 2014, p. 115-136.

sobre a autora

Heliana Angotti-Salgueiro é doutora em História da Arte pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Pesquisadora em São Paulo, é autora de artigos e livros nas áreas de história urbana, história cultural da arquitetura e do urbanismo, geografia humana e história da fotografia moderna. Atualmente desenvolve pesquisas sobre intermídias urbanas e escreve a biografia intelectual do engenheiro-arquiteto paulista Luiz de Anhaia Mello.

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Critique et architecture

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La matérialité de l’architecture

La matérialité de l’architecture

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