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português
Este novo artefacto de 15.000 m2 constrói brilhantemente o lugar e estrutura-se em torno à espinha dorsal constituída pelo corredor principal “que, a modo de rua pedonal, organiza áreas, volumes e circulações”.

english
This new artifact of 15,000 m2 builds brilliantly the place and is structured around the backbone formed by the main corridor "like a pedestrian street which organizes areas, volumes and circulation".

español
Este nuevo artefacto de 15.000 m2 construye brillantemente el lugar y se estructura en torno a la espina dorsal constituida por el corredor principal “que, a modo de calle peatonal, organiza áreas, volúmenes y circulaciones”.

how to quote

ORUETA, Juan António Ortiz. Construção e desconstrução. Escola Gaspar Frutuoso em Açores, de Carlos Almeida Marques. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 206.01, Vitruvius, fev. 2018 <https://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.206/7253>.


Devo dizer que o labor profissional de Carlos Marques produz-me uma grande inveja, inveja sã, isso sim. Porque a sua atividade está baseada num exercício disciplinar muito abrangente e muito rigoroso e porque não sei onde é que encontra o tempo para a sua intensiva dedicação à arquitetura.

Verdadeiramente, para além da elaboração de projetos arquitetônicos e direção das obras correspondentes, a sua atividade no âmbito do urbanismo e ordenamento territorial, a sua atividade investigadora, o ensino universitário, a escrita de múltiplos textos, manifestam uma entrega plena à arquitetura, sustentada em todas essas vertentes intelectuais.

É precisamente essa característica de arquiteto quase renascentista o que lhe permite fazer edifícios tão esplêndidos como este que protagoniza o livro, porque a Escola Gaspar Frutuoso, na Ribeira Grande, é mais do que um edifício de equipamento.

Assim, o projeto é um tratado sobre uma nova maneira de repensar desde a arquitetura a organização vertical do ensino obrigatório onde partilham espaço diferentes faixas etárias, a partir de uma inteligente e inovadora estruturação funcional do edifício, produto de uma profundíssima análise, como apontam os comentários do arquiteto reproduzidos no livro.

Aliás, é um modelo interessantíssimo de colonização territorial; uma enorme construção que deve fragmentar-se não só para se adequar ao sítio – à cidade e a paisagem – mas também para gerar a escala adequada para os utentes, nomeadamente os alunos, e para se relacionar com a comunidade local na que se insere. Em concordância com o arquiteto Francisco Barata, que foi professor catedrático na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, diríamos que “a sintonia do projeto com o sítio é uma mostra quer de tradição quer de modernidade”.

Este novo artefato de 15.000 m2constrói brilhantemente o lugar e estrutura-se em torno à espinha dorsal constituída pelo corredor principal “que, a modo de rua pedonal, organiza áreas, volumes e circulações” e resulta enormemente destacável como a edificação se desabafa, deixando aparecer diversos pátios, intra-espaços, em denominação do próprio arquiteto, que facilitam uma relação intimista com o exterior, constituindo-se, quando necessário, em espaços de jogo e de passeio, favorecedores da adequada relação humana imprescindível para a formação das crianças.

Existe também um importante estudo quanto a tradições construtivas vernaculares, tal como a reinterpretação das grandes janelas dos núcleos de salas de aulas, inspiradas nas janelas do Convento de Nossa Senhora da Esperança em Ponta Delgada, na mesma Ilha de São Miguel.

É, certamente, a obra de um arquiteto do Método, nas palavras das arquitetas Lizete Rubano e Maria Isabel Villac no livro, baseado na experiência profissional, sim, mas numa experiência plena de investigação e ensino, de rigor e de análise. Um edifício resolvido exemplarmente no que diz respeito aos aspectos funcionais e estéticos mas, fundamentalmente, quanto à criação dos espaços amáveis e acolhedores, que possibilitarão as melhores vivências e experiências em torno ao ensino e, com isso, a felicidade de alunos e professores, o que será coadjuvante para a consecução dos melhores sucessos no âmbito docente.

Ao analisar, no capítulo 3 do livro, a leitura que Carlos Marques faz dos esquissos da obra The Language of School Design: Design patterns for 21st Century Schools, de Prakash Nair e Randall Fielding, resulta muito evidente o intenso exercício feito pelo arquiteto conferindo caráter prévio ao próprio design do edifício.

Escola Gaspar Frutuoso, Ribeira Grande, ilha de São Miguel, Açores, Portugal, arquiteto Carlos Almeida Marques
Foto Fernando Guerra

Pode assim comprovar-se como os conceitos expressos por ele nesse capítulo são completamente marcantes das estratégias funcionais do projeto e ficaram aplicados rigorosamente na Escola Gaspar Frutuoso. Porém não apresentam só decisões técnicas mas também, e muito especialmente, convicções do que deve oferecer um edifício de ensino para a melhora das vivências experimentadas pelos alunos e para a prossecução dos objetivos da melhora da formação pessoal e de aprendizagem daqueles. É por isso que queria citar textualmente algumas dessas significativas reflexões:

“A definição dos espaços de circulação como extensões de outros espaços de atividades promove o convívio entre alunos de diferentes faixas etárias, facilitando a integração ao longo do percurso escolar”.

“As salas de aula correspondem ao local onde os alunos passam grande parte do seu dia, devendo estas ser elaboradas de modo a transmitirem a ideia de bem-estar, onde é aprazível aprender”.

“É relevante que exista uma zona onde possam partilhar alguns momentos, facilitando a comunicação saudável entre alunos de diferentes idades”.

“O espaço da escola deve adequar-se a atividades paralelas ao ensino generalista dos jovens, criando condições para que aquelas possam decorrer tanto no horário de aulas como à noite ou fins de semana e, preferencialmente, que incluam a participação da comunidade”.

“A ideia de que se aprende melhor num ambiente escolar saudável deverá ser uma prática corrente, criando a ideia de relação afetiva com o local de formação”.

“Com a criação de ambientes distintos pretende-se promover a proximidade entre interior e exterior enquanto espaços conexos, e fundamentalmente uma relação didática com a paisagem, que aqui se assume como elemento de elevado valor na formação dos jovens. Para além disto, o contato visual com o exterior estimula a aprendizagem e o processo cognitivo, potencializando o caráter didático das atividades. Cabe ao projeto de arquitetura e paisagismo criar uma eficaz relação interior/exterior, atendendo por um lado ao que foi mencionado, mas não esquecendo fatores como a proteção ao sol, vento e chuva destas extensões das salas de atividades”.

“O espaço arquitetônico deverá ser elaborado tendo em conta as diferentes necessidades de luz, natural ou artificial, o percurso solar ao longo do dia e do ano, e a forma como influencia o funcionamento das atividades. Importa caracterizar as diferentes zonas quanto à quantidade de luz direta/ indireta e reflexão da mesma. Pretende-se criar ambientes visualmente confortáveis e adequados a cada uma das funções associadas aos espaços”.

“Uma saudável relação entre os alunos e a escola é tanto mais fácil quanto mais apelativo for o espaço e mais integrado no contexto urbano estiver. Em locais onde a paisagem tem uma grande relevância, é particularmente importante que o complexo escolar surja como elemento de destaque, mas sem se tornar dissonante do contexto”.

“Um local de ensino deverá ultrapassar a ideia de espaço encerrado, para se adequar a um conceito de interação com a comunidade, de um espaço usufruído para além dos horários escolares, gerando dinamismo cultural e social. O espaço da escola pode tornar-se um polo dinamizador de cultura, onde é possível partilhar informações, atividades e experiências, não só entre alunos e educadores, mas com a comunidade”.

Evidentemente, com a análise dos desenhos do projeto e as fotografias da obra terminada comprovar-se-á a consecução das intenções todas previamente estabelecidas e, agora, corresponde à comunidade escolar tirar o maior proveito das excecionares condições alcançadas pela arquitetura da Escola.

Também não estão esquecidos todos os aspetos relacionados com a sustentabilidade, quer meio ambiental, quer económica, atendendo rigorosamente à questões tais como a orientação e a iluminação natural, ou o reaproveitamento das águas pluviais. Se calhar, a concepção duma construção facilmente des-construtível ao fim da vida útil do edifício faça desta obra um exemplo modelar de economia verde circular, tão frequentemente mencionada mas tão escassamente aplicada na prática.

E não só, porque a enorme versatilidade que permitem as técnicas construtivas utilizadas no interior possibilitam no futuro tanto alterar a distribuição quanto introduzir novas infraestruturas pelo interior das paredes amovíveis, o que antecipa a resiliência da Escola para se adaptar a novos critérios didáticos ou funcionais que possam acontecer em décadas vindouras.

Para além do anterior, ao falar em construção (e des-construção), é preciso deter-se nos pormenores das soluções nas fachadas, as coberturas, os encontros entre diferentes planos e materiais, estudados, desenhados e construídos com enorme elegância e rigor, o que faz lembrar-me do meu admirado arquiteto Fernando Távora, quando citava Louis Sullivan apontando a Frank Lloyd Wright: “Take care of the terminals, Frank, because of, the rest will take care of itself”.

Escola Gaspar Frutuoso, Ribeira Grande, ilha de São Miguel, Açores, Portugal, arquiteto Carlos Almeida Marques
Foto Fernando Guerra

Ainda mais, num olhar de pássaro, até as instalações colocadas sobre a cobertura aparecem adequadamente ordenadas; questões habitualmente descuidadas que, aqui, denotam uma estudada organização. Com certeza, Carlos Marques conhece e defende a frase do grande arquiteto britânico dos princípios do século 20, sir Edwin Luytens, em resposta a um dos seus colaboradores sobre um erro num lugar que nunca poderia ser visto: “Deus sim o vê”.

Encontramo-nos, por tanto, frente a um novo paradigma arquitetônico e, diria eu, educacional, que, sem dúvida nenhuma, estabelecerá um modelo a analisar em intervenções futuras no âmbito das novas estratégias de ensino nacionais e, ainda, internacionais.

Fico convencido de que o edifício suportará muito bem a passagem do tempo, mesmo nas condições funcionais como nas construtivas; será, pois, uma obra magistral do seu tempo, mas que envelhecerá nobremente e atingirá adequadamente às necessidades de futuras gerações de meninas e meninos da Ribeira Grande.

Esta Escola responde à verdadeira condição da arquitetura: a função social para a melhora das condições de vida das pessoas e é assim como o ofício da profissão de arquiteto deve enfrentar uma indubitável missão de serviço porque, aquilo que disse José Antonio Coderch há já mais de meio século, “não são génios o que precisamos agora...”, continua vigente.

Queria finalizar dando os meus parabéns ao editor Jorge Ferreira por seu compromisso permanente com a difusão da arquitetura de qualidade, de que este livro é mais uma mostra, ao professor Luiz Duarte Fagundes por ter acreditado nas possibilidades duma nova arquitetura escolar para um novo ensino e às colegas Lizete Rubano e Maria Isabel Villac, pelo magnífico texto que acompanha os desenhos e as imagens do livro.

Parabéns, muito especialmente, a Carlos Marques por esta obra e por ser um grande arquiteto em permanente evolução. Com certeza, Carlos Marques continuará a investigar, a ensinar, a escrever, em suma, a progredir e melhorar ainda mais no seu exercício projetual porque, apesar de esta Escola ser um magnífico contributo à arquitetura e à sociedade açoriana, acredito que ele concordaria com o Pessoa da Estética da abdicação, no Livro do Desassossego: “Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levou à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre”.

sobre o autor

Juan António Ortiz Orueta é arquiteto por la Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Madrid de la Universidad Politécnica de Madrid (1984). Dedicado al ejercicio libre de la profesión desde ese año. Doctor Arquitecto por la Universidad Politécnica de Madrid (2015). Desde junio de 2017, Decano del Colegio Oficial de Arquitectos de Extremadura (COADE) y Consejero del Consejo Superior de Colegios de Arquitectos de España (CSCAE).

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Gaspar Frutuoso School

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