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my city ISSN 1982-9922

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José Lira, arquiteto e crítico de arquitetura, comenta o processo de descaracterização e demolição da arquitetura modernista no Recife.

how to quote

LIRA, José. Ruínas da modernidade no Recife. Bota-abaixo de casas modernas e saudades de futuro . Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 243.02, Vitruvius, out. 2020 <https://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.243/7904>.



Nessa semana lembrei do Obituário arquitetônico – Pernambuco modernista (1), livro do querido amigo, meu ex-professor Luiz Amorim. É um desses livros-denúncia, mas também alerta, conclamação, e não só lamento ante o desaparecimento nefasto de um dos mais bonitos registros da história cultural e urbana do Recife: sua modernidade arquitetônica, vista por ele de modo generoso, alargado, atento às múltiplas formas de assassinato, imolação, parasitismo em relação ao patrimônio edificado na cidade.

É que a casa que seu pai, Delfim Amorim, projetou para o empresário Miguel Vita, que até hoje ficava na rua Santana, em Casa Forte, acaba de ser demolida. Fiquei sabendo por outro amigo, o fotógrafo Fred Jordão, que passou por acaso pela ruína essa tarde. A obra sequer constava do livro de Luizinho, publicado em 2007, talvez porque o autor acreditasse que a conversão de uso do imóvel para sede da respeitada agência estadual de controle ambiental de certo modo o poupasse da morte já anunciada por reformas ineptas, da morte precoce, da morte sádica de tanta arquitetura boa em toda a cidade. Inclusive nos 12 bairros (2) desde 2001 supostamente protegidos da sanha devastadora do capitalismo imobiliário.

Casa Miguel Vita, Recife, 1958. Arquiteto Delfim Amorim
Foto Alcilia Afonso [portal Vitruvius]

Projetada em 1958 pelo arquiteto português (3), a casa é um desses exemplares magistrais, e seminais, de uma das mais belas sínteses do diálogo entre arquitetos portugueses e brasileiros no pós-segunda guerra por um de seus intérpretes mais criativos. Vista em conjunto, sua obra brasileira é impregnada de reflexão sobre os materiais, as técnicas, as formas, os espaços em sua pertinência ao ambiente local, com seu clima quente e úmido, o sol e a chuva sempre volumosos, sua brisa estável, confiável, com sua tradição da fresca, da sombra, da vida de terraço, de pátio, de jardim, de quintal. E tudo estava na casa Miguel Vita, ainda que seus muros de mansão, mais altos que de costume, ousassem escondê-lo. Assim como seu típico uso do telhado de suave inclinação (no caso em borboleta), com a telha canal assentada diretamente sobre a laje plana estruturada em nervuras de concreto e blocos cerâmicos, seu modo de pousar, ou antes, de negociar com o solo, e seus pilares trapeizodais, seu controle brilhante de planos, de altimetria, de promenade, de superfícies e revestimentos. Soluções que cairiam como nenhuma outra ao gosto regional-modernista da intelectualidade e da clientela pernambucana. Uma joia de elegância, de inteligência arquitetônica, que foi hoje espezinhada pelos tratores.

Fica a memória. Inclusive a minha, que adorava os guaranás Fratelli Vita quando criança; que até os 14 anos morava na mesma Rua Santana, e que nos fins de semana e dias mais quentes passava de bicicleta ali na frente da “casa de Miguel Vita” pra invadir, mais adiante, quase ao fim da rua, a piscina da casa de Dr. Zé Rodrigues, cujo portão estava sempre aberto aos amigos dos filhos, casa aliás também projetada por Delfim em 1970.

Casa Miguel Vita, planta baixa, Recife, 1958. Arquiteto Delfim Amorim
Redesenho Alcilia Afonso [portal Vitruvius]

Casa Miguel Vita, elevação e corte, Recife, 1958. Arquiteto Delfim Amorim
Redesenho Alcilia Afonso [portal Vitruvius]

Nessas horas de luto perguntamos como vencer a melancolia, a nostalgia, a derrota sistemática, constante, humilhante. Não só gostaria de saber mais em detalhe o que aconteceu, o que houve com o CPRH (4), o que vão fazer no lugar. Mas queria saber melhor da patrimonialização desses bens arquitetônicos modernos recifenses, que estão se tornando tão raros quanto os barrocos, os maneiristas, os neoclássicos, ecléticos, neocoloniais etc, que ainda permitem à cidade uma certa arqueologia de seu desenvolvimento. Queria saber o que poderemos fazer pra guardar outros de seus marcos, de seus rastros, não só em prol da memória urbana, técnica, artística, sociocultural, mas em prol de espaços e edifícios menos tacanhos, menos monótonos, subservientes, de usos menos extorsivos da renda da terra, de padrões ambientais menos insustentáveis do que incorporadores e seus úteis e talentosos funcionários vêm propondo às futuras gerações.

notas

1
AMORIM, Luiz Manuel do Eirado. Obituário arquitetônico. Pernambuco modernista. Recife, Editora UFPE, 2007 <www.vitruvius.com.br/pesquisa/bookshelf/book/229>. Do mesmo autor, ver: AMORIM, Luiz Manuel do Eirado. Trocando gato por lebre: quando os instrumentos legais de preservação não preservam o que deve ser preservado. Anais do 11° Seminário Docomomo Brasil, 17 a 22 de abril de 2016, Recife, 2016 <https://bit.ly/2SUdj7e>.

2
LACERDA, Norma; ARAÚJO, Luiz Helvecio de; ALVES, Paulo Reynaldo Maia; CUNHA, Francisco. Lei dos 12 bairros. Recife, Cepe, 2018 <https://bit.ly/2Fs7JFZ>.

3
DELFIM Fernandes Amorim (verbete). In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. <https://bit.ly/3iX7QH5>.

4
CPRH – Agência Estadual do Meio Ambiente, Governo do Estado de Pernambuco <https://bit.ly/3iTbqlL>.

sobre o autor

José Tavares Correia de Lira é professor titular do departamento de história da arquitetura e estética do projeto da FAU USP e ex-diretor do Centro de Preservação Cultural da USP. É autor de Warchavchik: fraturas da vanguarda (Cosac Naify, 2011) e O visível e o invisível na arquitetura brasileira (DBA, 2017), e organizador, entre outros, de Caminhos da arquitetura, de Vilanova Artigas (Cosac Naify, 2004, com Rosa Artigas).

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