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my city ISSN 1982-9922

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O arquiteto Manoel Ribeiro conta a história do bairro de Ipanema desde sua origem no início do século 20.

how to quote

RIBEIRO, Manoel. Ipanema meu amor. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 239.04, Vitruvius, jun. 2020 <https://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.239/7769>.



Não conheço cidade no mundo com um espaço de geografia tão peculiar e que ofereça tamanha concentração de amenidades, em um território tão restrito. Uma praia de restinga, uma lagoa e um maciço montanhoso, coberto por exuberante mata atlântica, compõem o amplo anfiteatro que acolhe Ipanema e os bairros – Lagoa, Gávea, Jardim Botânico e Leblon.

Nos nossos dias, especificamente com relação a Ipanema, ao longo de sua principal artéria – a Visconde de Pirajá, são expostos apenas alguns resquícios de um comércio sofisticado, bancos (muitos bancos), lojas de departamentos e farmácias. Nas suas transversais, Ipanema ainda guarda o caráter de extraordinário lugar de morar e um comércio local, cada vez mais escasso, além de restaurantes sofisticados, frequentados por turistas e moradores. Em várias de suas ruas, ao observador atento, ainda podem ser encontrados vestígios das antigas feições do bairro, que denotam os papeis pregressos que ele desempenhou, ao longo de sua história.

O traçado geral de Ipanema é semelhante ao de Manhatan – um xadrez simples e eficiente que organiza a ocupação da faixa de areia que separa a Lagoa de uma praia urbana para australiano nenhum botar defeito. Ao longo de seu eixo estruturante, uma série de referências orientam os transeuntes em um trajeto transversal a todo o bairro – duas praças (General Ozório e Nossa Senhora da Paz), o Bob’s (opps!, esse ficou só com a frente para a Garcia D´Ávila, cedendo a fachada da Visconde de Pirajá a uma loja da Adidas), o Bar 20 na esquina da transversal de maior largura (Henrique Dumont), onde o bonde  fazia a volta, e o Jardim de Alah e seu canal que drena a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Claro que a história de Ipanema vem de muito mais longe, mas na década de 1960 ainda estava visível a intenção de seu projetista – o engenheiro da prefeitura, Luís Raphael Vieira Souto –, definida nos idos de1919. O projeto original, estabelecia pouco mais de 40 quadras, divididas em 40 lotes que, na maioria, tinham 10m x 50m. Na verdade, lotes com testadas muito estreitas e demasiado profundos.

Projeto do bairro de Ipanema, projeto do engenheiro Luís Raphael Vieira Souto, mapa da Companhia Construtora Ipanema
Imagem divulgação

Contudo, a questão das testadas exíguas foi corrigida por remembramentos e a profundidade dos lotes ensejou um aproveitamento criativo dos miolos de quadra, produzindo vilas e “garrafões”, contribuindo significativamente para a diversidade das modalidades de morar que o bairro oferece. E as quadras da praia, cada uma com mais ou menos 200 m de frente para o oceano, eram o “filé” do empreendimento imobiliário.

Em princípio, um lançamento pensado para segunda residência das classes mais privilegiadas, conforme revelava a propaganda do novo loteamento, redigido em francês: “recommandée pour l’air pur et vivifiant qu’on y respire et les superbes points de vue qu’on y découvre. Les dimanches tramways de 10 en 10 minutes et jusqu´à heure avancée de la nuit” (1).

De fato, as parcas oito ruas que desembocam na praia economizavam espaço para residências voltadas um público de maior poder aquisitivo, da alta burguesia carioca de então, contrastando com as quadras de testadas mais estreitas do Leblon, e as suas 14 ruas transversais, numa fachada marítima muito menor, claramente um empreendimento mais focado nos segmentos de classe média.

Mas Ipanema também quis atrair essa classe média. Casas de vila no miolo dos quarteirões e sobrados nas esquinas, com comercio no térreo, predinhos de três andares, sem elevadores, procuravam democratizar essa localização privilegiada “aux bord de la mer”.

Os predinhos de três andares ainda hoje são encontrados na rua Nascimento Silva, Barão da Torre, na antiga Montenegro, bem como os sobrados sobre a lojas comerciais das esquinas interiores do bairro, como na Garcia D’Ávila, são exemplo de produtos imobiliários voltados para esse público. Na verdade, alguns desses predinhos vêm se transformando em ícones “retrofitados”, valorizados pelo que lembram de um passado romântico, incluindo o “Prédio Azul”, que virou “astro” de uma série de TV, quase na esquina da Barão de Jaguaripe com a Joana Angélica.

Há até um caso de “predinho fake”, em cima do Bar Garota de Ipanema, antigo Veloso, na esquina “do Prudente com o Imprudente de Moraes”, como pontificou o Millor, um morador ilustre. Esses espaços ensejavam a diversidade social, uma característica do bairro em formação que se manteve durante muito tempo, mais tarde atraindo artistas e intelectuais que vieram compor uma imagem boêmia e “cult”, marcante nos tempos do Pasquim e da bossa nova.

Bonde 13 em destino a Ipanema, Rio de Janeiro
Foto divulgação [Wikimedia Commons]

Na década de 1960, em Ipanema, os destinos da boemia notívaga eram apenas dois: o Jangadeiros, em frente à Praça General Ozório (onde hoje é a galeria Leila Diniz) e o Zepelim, na Visconde de Pirajá, entre a Anibal e a Garcia.

A mobilidade interna, além dos agradáveis passeios a pé, contava com o Bonde 13, que vinha de Copacabana, pela Visconde de Pirajá, e chegava ao Bar 20, onde fazia o retorno, no lugar em que hoje existe o “Obelisco do Cazé”. Até 1963, ainda era possível fazer essa viagem incrível.

Nessa época, as intenções do projetista ainda estavam materializadas no modelo que mesclava residências de luxo, casas e apartamentos de classe média, cinemas (o Pirajá e o Pax) e comércio de bairro, de modo a oferecer oportunidades de encontros inter-classes, facilidades de consumo cotidiano, cultura e lazer, de maneira a criar as bases de uma vida social e comercial harmônica, e bem distribuída sobre o território.

Bonde passando por Ipanema
Foto divulgação [Wikimedia Commons]

Nessa mesma década, e no início da década seguinte, a população residente, cultivava um “estilo” próprio, misturando-se despreocupadamente com os visitantes, circulando pelo bairro em sungas e biquínis, ou roupas das grifes mais conhecidas de então – Krishna, Richards, Company, Biba, Fioruchi, Cantão, São Francisco, Smugler etc.

Por volta de 1972/73, a paisagem local começou a ser alterada e, com ela, a população do bairro. Foi o tempo do desaquecimento da bolsa que produziu a migração de capitais especulativos para o setor imobiliário. Aceleradamente o balneário transformava-se na “cidade moderna”, voltada para os carros e para a exploração do solo regulado apenas pelas forças de mercado. Estávamos na era dos “sérgios dourados” e dos “espigões”, a era da verticalização que, reduzindo custos a cada andar acrescido, maximizava valores de venda das cotas de terreno.

O impacto sobre Ipanema foi radical e só cessou quando os “preços bateram no teto”, impulsionados por um Decreto do Prefeito Marcos Tamoio, que estabeleceu regras edilícias que exigiam playgrounds e garagens para dois carros por apartamento, o que encarecia os custos de produção estreitando mercados e diminuindo lucros. Essas novas posturas edilícias eram então chamadas com um certo cinismo pelos empresários do setor de “códigos elitistas”.

Nesse período, a procura era tão enlouquecida que apartamentos eram vendidos em planta, passando por dois ou três proprietários antes de chegar a um efetivo morador ou a um investidor retardatário, que ficava com um “mico preto” na mão, sem possibilidade de revender.

Diante da bolha estourada, ou quase, os novos lançamentos vieram se deslocando, para Copacabana, Botafogo, Flamengo e Catete, empurrados pelos altos preços de Ipanema/Leblon. Surgiram até os “franciscos xavieres”, que lançavam empreendimentos de “padrão zona sul” na Vila da Penha e outros subúrbios. Mas a grande e intencional alternativa à Zona Sul gentrificada era a Barra da Tijuca, vendendo seus “genéricos” – Nova Ipanema e Novo Leblon, a preços mais acessíveis.

Enquanto a Barra crescia, em Ipanema, as diversas legislações posteriores, certamente menos inspiradas que a original, sempre com propostas pasteuriazantes e homogeneizadoras, deixaram suas marcas, mas, graças à Deus (ou à crise imobiliária que atravessou toda a década de 1980) nenhuma conseguiu substituir completamente as construções de sua antecessora. Assim, as sucessivas tipologias construtivas acabaram se incorporando à paisagem variada do bairro.

Avenida Vieira Souto, Ipanema, Rio de Janeiro
Foto Marc Ferrez [Portal Brasiliana Fotográfica / BN]

Mas, as concepções das legislações que sucederam às da proposta global do Engenheiro Vieira Souto tratavam das edificações isoladamente, desconectando-as dos prédios vizinhos, da volumetria da quadra e do próprio espaço público, regulando-as apenas por parâmetros herdados do “modernismo” – afastamentos frontais e laterais, taxas de ocupação, gabaritos etc. O objetivo continua atraente para quem tem recursos, gosta de conviver com seus iguais e desfrutar de novidades como spas privativos, espaços gourmet, salões de festas etc., elementos de caráter socialmente segregadores.

Desde a implantação do Lotemento Ipanema esse “projeto” oficial é o pior já concebido – fachada do lote inteiramente ocupada por três andares de garagem e com a primeira varanda no quarto andar, muito acima das copas das árvores, na altura dos telhados dos prédios vizinhos, eventualmente remanescentes do projeto original.

Na Rua Barão de Jaguaripe entre a Vinícius de Moraes e Joana Angélica, um conjunto desse tipo de prédios dá uma ideia de como ficaria o bairro numa hipotética e radical renovação urbana. Edifícios idênticos alinhados como soldados, diferindo entre si apenas por maneirismos de fachada, com belos jardins nos recuos das calçadas desertas, formando um corredor por onde trafegam viaturas de vigilância privada e carros blindados levando as crianças na escola ou suas mães ao shopping.

A sensação de medo vigente induz à busca por uma suposta segurança e é explorado como estilo de vida, criando um novo tipo de demanda, tornando as tipologias anteriores passiveis de substituição, já que não dispõem dos novos requisitos da “boa moradia”. Mantida essa tendência, as ruas não terão os tradicionais grupos de porteiros conversando e nem passantes a serem cumprimentados. O controle social do bairro será terceirizado e realizado através de câmeras de TV e os encontros e trocas se darão em espaços exclusivos e entre iguais.

Quadro semelhante é encontrado na Visconde de Pirajá, com suas amplas calçadas esvaziadas à noite, por conta da proibição da colocação de mesas e cadeiras nas calçadas, tornando-as desertas e inseguras, ao contrário das quadras da Ataulfo de Paiva, no Leblon, onde mesas de bares e restaurantes proliferam alegremente. Como ressaltava a jornalista canadense Jane Jacobs, a desertificação das calçadas ao invés de propiciar segurança, cria a oportunidade para inovadoras modalidades de crime, nas chegadas e saídas dos moradores a seus edifícios e nas simulações de entregas de pizzas e encomendas.

De um modo geral, a cada corte tecnocrático/empresarial, representado pelas diversas e sucessivas legislações, propõe-se uma nova visão de bairro, unitária e totalizante, ignorando o acúmulo de precedências que contam a história do bairro, lhe dão caráter formal e identidade sociocultural a cada uma de suas parcelas.

A boa notícia é que a nova crise imobiliária, fruto da elevação especulativa dos preços dos imóveis, turbinados pelo eventos globais – Pan-Americano, Copa do Mundo e Jogos Olímpicos – e a chegada no Brasil da crise econômico-financeira mundial, está abrindo espaço para uma reflexão sobre o bairro e a cidade, permitindo ainda a conservação de alguns marcos representativos das várias fases por que passou Ipanema, um percurso de brilhos e sombras, de incertezas sobre o futuro e saudades do passado.

Praias de Ipanema e Copacabana, Rio de Janeiro
Foto divulgação [Portal Brasiliana Fotográfica / BN]

notas

NA – Este texto foi escrito antes da crise sanitária global, que vai exigir de arquitetos e urbanistas novas reflexões sobre o que é projetar cidades, bairros e imóveis isolados.

1
“Recomendado pelo ar limpo e revigorante que você respira e pelas excelentes vistas que se descobre por lá. Bondes de domingo, de 10 em 10 minutos e até tarde da noite”. Tradução livre.

sobre o autor

Manoel Ribeiro é arquiteto e autor de projetos para o “Favela-Bairro”, programa de urbanização de favelas cariocas no Rio de Janeiro.

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