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José Roberto Fernandes Castilho, organizador do livro “A grande cidade. Um retrato de Paris no começo do século XIX”, de Paul de Kock, publicado originalmente em 1842, comenta uma das crônicas presente no livro e disponibilizada aqui em português.

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CASTILHO, José Roberto Fernandes. Os passeios das ruas de Paris em 1842 segundo Paul de Kock. Resenhas Online, São Paulo, ano 20, n. 229.02, Vitruvius, jan. 2021 <http://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/20.229/7997>.


Gustave Caillebotte, “Rua de Paris com tempo chuvoso”, 1877
Imagem divulgação [Wikimedia Commons]

Esta deliciosa crônica chamada “Os passeios das ruas” (“Les trottoirs”) – publicada abaixo na íntegra – é um documento histórico que demonstra a novidade dos passeios ou calçadas na cidade de Paris. Ela foi publicada em 1842 no livro La Grande Ville Nouveau. Tableau de Paris – comique, critique et philosphique (1) do esquecido escritor francês Paul de Kock (1793-1871), que era muito popular no século 19 (2). Como Sue, como Dumas, ele se alinha a autores que escreviam para o novo leitor que se formou em razão do crescimento da educação, procurando narrativas simples. Escritor prolífico, que publicava em folhetins, naquela obra ele observa e descreve o quotidiano pequeno burguês de Paris, cidade que já se transformava rapidamente durante a primeira metade do século 19.

A maior parte das ruas de Paris, na época, não era pavimentada. Daí porque escreve Paulo Rónai: “A lama era a característica mais constante dos logradouros públicos de Paris e servia, ao mesmo tempo, de critério distintivo entre as diversas classes da sociedade. Ao olhar para os sapatos de quem entrava num salão, notava-se imediatamente se viera a pé ou de carruagem, isto é, se era rico ou se era pobre; e eis porque os jovens ambiciosos de Balzac, como aliás o próprio escritor, nada desejavam tão ardentemente como uma carruagem. A lama era permanente nessa cidade tão chuvosa e tinha a sua cor característica – a tal ponto que a Luísa de Chaulieu [personagem de Memórias de duas jovens esposas], dona de uma fazenda perto de Paris, basta a vista das botas sujas do marido para descobrir que este fora à capital sem lho dizer” (3). Honoré de Balzac (1799-1850), pouco mais jovem, foi contemporâneo de Paul de Kock.

Place de Dublin da rue de Moscou, 8º Arrondissement de Paris, local onde Gustave Caillebotte pintou “Rua de Paris com tempo chuvoso”
Foto Tangopaso [Wikimedia Commons]

A tradução é do português J. A. Xavier de Magalhães (aqui revista e modificada) e, sob o título de Cenas e quadros parisienses, foi publicada em data ignorada da segunda metade do século 19 pela Imprensa Minerva, de Lisboa, no âmbito das obras completas do autor, que tiveram sucessivas reedições. A versão foi confrontada com o original francês e corrigida por mim.

notas

1
Versão em português: KOCK, Paul de. A grande cidade. Um retrato de Paris no começo do século XIX. Organização, revisão e notas de José Roberto Fernandes Castilho. São Paulo, Pillares, 2015.

2
Ver: PAES, Alessandra Pantoja. Das imagens de si ao mundo das edições: Paul de Kock, romancista popular. Orientadora Valéria Augusti. Dissertação de mestrado. Belém, ILC UFPA, 2013 <https://bit.ly/38g07BS>.

3
RÓNAI, Paulo. Paris, personagem de Balzac. In Balzac e a comédia humana. 2ª edição. Porto Alegre, Globo, 1957, p. 129.

sobre o autor

José Roberto Fernandes Castilho é professor de direito urbanístico e de direito da arquitetura na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual de São Paulo – FCT Unesp.

Ilustração original da crônica “Os passeios das ruas” (“Les trottoirs”), publicada no livro La grande ville, de Paul de Kock, 1842
Imagem divulgação

Os passeios das ruas
Paul de Kock

A época dos passeios laterais das ruas chegou finalmente: todas as ruas de Paris, sem dúvida, hão de vir a tê-los. Entretanto, muitas já os possuem atualmente. Nas ruas novas e largas, os passeios são espaçosos e belos; nas ruas estreitas são obrigados a ser também estreitos, porque é preciso, evidentemente, deixar lugar para duas carruagens (“voitures”) que a cada instante podem encontrar-se.

Em algumas ruas, o passeio só aparece aqui e acolá... Dão-se dez passos sobre ele, depois se encontra o pavimento da pista, mais adiante se vê ainda um bocado de passeio, e assim a seguir: isto dá sempre a esperança que tal melhoramento acabará por se estabelecer inteiramente e por toda parte.

Alguns censuram os passeios porque seriam demasiado estreitos, sem reparar que o defeito está na própria via e não neles; a razão é aquela que acabamos de dizer, a necessidade de deixar espaço para as carruagens. O que se pode, com algum fundamento, criticar neles é que não são elevados o suficiente do leito (“ne sont pas élevés de terre”). E tanto isto é verdade que mais de uma vez temos visto as rodas de carruagens saírem do caminho que lhes foi traçado e rolarem alguns segundos sobre o passeio, quando os cocheiros querem passar para frente de algum colega. Então, os infelizes pedestres, que se julgam livres de qualquer perigo porque estão no passeio, acham-se ali muito mais expostos do que n’outra parte pela razão de caminharem confiadamente e sem receio das carruagens.

Em Paris, os passeios laterais das ruas provocam frequentemente cenas divertidíssimas para o observador desocupado. Aquele que vai apressado, no entanto, deixa o passeio e não tem tempo de fazer quaisquer observações.

Todos querem ficar do lado das paredes das casas (“le côté des maisons”). Quando dois sujeitos se encontram, nota-se primeiro um momento de hesitação, nenhum quer ceder. É preciso, entretanto, que um deles resigne-se a desviar-se um instante do seu lado favorito porque senão ficariam horas inteiras no mesmo lugar, defronte um do outro.

Algumas vezes, depois de terem pretendido resistir, os dois indivíduos decidem-se ao mesmo tempo a ceder a passagem. Então se sabe o que acontece: vão de encontro um ao outro; para poderem seguir o seu caminho, apressam-se a lançar-se para o outro lado; infelizmente fazem ambos o mesmo movimento e tornam a encontrar-se. Isto dura, em certas vezes, muito tempo e tal não sucederia se um dos dois sujeitos tivesse parado, dizendo ao outro: “Queira ter a bondade de passar” (“Allons, passez donc”).

Há pessoas que, num passeio muito estreito, se entretêm a conversar com os amigos que encontram, de sorte que não se pode caminhar nem pela direita nem pela esquerda: é preciso dar-se volta pelo meio da rua, com o risco de ser coberto de lama ou esmagado pelas carruagens porque agrada àqueles senhores estarem de conversa sobre o passeio.

Quando se encontram tais sujeitos, temos todo o direito de pisá-los e de acotovelá-los, até que eles tenham deixado a passagem livre.

Há ainda homens que têm o desgraçado costume de trazer a bengala ou o guarda-chuva debaixo do braço, quase em posição horizontal. Quando vamos passar encontramos a ponteira daqueles objetos disposta a tirar-nos o olho, ou pelo menos a encher-nos o casaco de lama. Fazemos então descer a tal ponteira da bengala ou do guarda-chuva, ou a obrigamos a girar de maneira que o castão vá bater na barba daquele usa-a numa posição tão incômoda.

Quando chove, a passagem no passeio é dificílima nas ruas de Paris. Uma floresta de guarda-chuvas que se tocam, se batem, se prendem, se engancham algumas vezes... um levanta o seu, mas abaixando o nosso, encontramos o chapéu de uma senhora. Os mais felizes são então aqueles que não têm guarda-chuva: eles passam abrigados pelos guarda-chuvas alheios.

Há ainda seres privilegiados para quem o passeio tem sempre espaço e aos quais homens e mulheres se apressam a ceder até o lado das casas. São os carvoeiros e pedreiros...

nota

NE – KOCK, Paul de. Os passeios das ruas, In A grande cidade. Um retrato de Paris no começo do século XIX. Organização, revisão e notas de José Roberto Fernandes Castilho. São Paulo, Pillares, 2015.

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A grande cidade

A grande cidade

Um retrato de Paris no começo do Século XIX

Paul de Kock

2015

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