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BRAGA, Eduardo Cardoso. Um olhar filosófico sobre o design. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 190.03, Vitruvius, out. 2017 <http://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.190/6742>.


O livro The Aesthetics of Design de Jane Forsey consiste em uma reflexão sobre o design de um ponto de vista da filosofia, mais especificamente da estética filosófica. Nesse campo filosófico, a autora se inscreve no subcampo da “estética do cotidiano”, o qual pretende redefinir a estética a partir de sua inscrição nas experiências do dia a dia, ampliando assim sua dimensão para além do campo da arte e suas categorias. O livro foi recebido de forma entusiasmada tanto na área da estética do cotidiano como na área do design. Ele recebeu uma avaliação crítica favorável por Thomas Leddy (1), que é um dos grandes expoentes da estética do cotidiano. Também a autora recebeu uma avaliação crítica favorável de Victor Margolin (2), importante teórico do design e professor da Politécnica de Milão, referência no ensino e pesquisa em design. Graças a esse sucesso, a autora foi convidada para palestras na Itália e outros países da Europa. Jane Forsey é Professora Associada do Departamento de Filosofia da Universidade de Winnipeg no Canadá.

O projeto de Jane Forsey consiste em desvelar as profundas relações que temos com os objetos, ações e interações cotidianas e que passam despercebidas por nossa atenção. Estamos em permanente contato com um mundo que foi projetado, portanto o design faz parte de nossa cotidianidade. O objetivo geral da autora é tornar esse design visível para a reflexão filosófica como uma parte significativa de nossas vidas. O principal foco da autora é compreender os juízos estéticos que elaboramos quando de nossa interação com objetos, informações e serviços que permeiam nosso dia a dia. O design é então uma das características básicas do substantivo “ser-humano” e uma determinante essencial para uma avaliação da qualidade da vida humana. Seu poder e ubiquidade podem ser claramente inferidos em nossas vidas, podendo nos salvar como o desfibrilador portátil; tornar nossos trabalhos cotidianos mais fáceis e simples como a máquina de lavar; entreter-nos como a televisão; influenciar-nos projetando nossos ambientes públicos e privados; podem até mesmo nos matar como as armas automáticas. Por tudo isso, passa a ser justificável e mesmo desejável a empresa intelectual da autora: tornar consciente nossa relação estética com nosso mundo projetado.

Para Forsey, o design é, em primeiro lugar, um fenômeno estético e sua teoria vincula-se à uma tradição filosófica: a kantiana; embora procurando compreender a estética como uma experiência na vida cotidiana e não restrita à fruição da arte. Essa atitude da autora torna seu trabalho extremamente interessante e singular, pois é muito raro ver um filósofo (no caso, uma filósofa) debruçar-se sobre o problema design, entendendo-o como um problema filosófico que deve ter uma resposta também filosófica. No caso presente, trata-se de um problema kantiano clássico: como é possível os juízos estéticos, ou seja, como podemos emitir juízos estéticos acerca de nossa cotidianidade, em especial sobre esses seres que a habitam e nós nomeamos design. Somente essa atitude e propósito são suficientes para a recomendação da leitura de seu livro.

Forsey investiga alguns dos principais debates na estética cujo principal paradigma são as artes visuais; especialmente o formalismo e o expressionismo na ontologia estética, e o realismo e o subjetivismo nas teorias da beleza e da apreciação estética. Sua conclusão é que o design não pode ser compreendido na dimensão dessas estéticas, necessitando então uma nova abordagem. Essa nova abordagem porém deve ter um substrato histórico que a legitime. Para tanto, é na esteira da estética de Kant, e suas novas interpretações, que Forsey irá buscar esse novo em continuidade com o passado.

A estética está presente na forma como desenhamos nossos ambientes, decoramos nossas casas e escolhemos nossas roupas. Essas ações envolvem julgamentos e escolhas estéticas que se relacionam com considerações de natureza prática ou moral. As experiências e escolhas cotidianas são em grande medida determinadas pela estética, a qual desempenha um importante papel em nossa interação com o design. Apesar disso, o design tem sido quase que inteiramente ignorado pelos filósofos que pensam a estética contemporânea. A teoria estética tradicional tomou como única referência a experiência estética das “Belas Artes” (fine art), concentrando-se em conceitos como Beleza, Sublime e, em alguns raros casos, com o fenômeno do artesanal e da cultura popular. A proposta de Forsey é criticar essa tradição e colocar a estética do design em novas bases filosóficas. Nesse sentido, seu trabalho se inscreve explicitamente dentro do novo campo estético conhecido como "estética do cotidiano" (Everyday Aesthetics). É no interior desse campo de estudo que a autora procura uma posição singular e desenvolve suas reflexões em torno da estética do design. Assim, Forsey pretende defender um lugar para o design como objeto de uma estética filosófica. Para tanto, ela enfrentará três desafios. O primeiro é responder a questão “o que é o design?” e sua especificidade quando comparado às outras produções humanas, especialmente o artesanato (craft). Essa é uma questão ontológica cuja análise possibilitará ao design receber uma atenção filosófica específica que a distingue de outras classes de objetos. O segundo se refere à questão do juízo estético e sua especificidade em relação ao design, ou seja, qual a natureza e princípio do juízo estético quando se trata de objetos de design. Essa é a parte mais interessante do trabalho filosófico de Forsey. Ela desenvolve uma teoria do julgamento estético que destaca os objetos de design, mas que, ao mesmo tempo, os coloca em uma continuidade com o julgamento estético de outros tipos de fenômenos. O terceiro desafio é demonstrar a importância do design para a estética filosófica e mesmo para a filosofia como um todo.

Forsey parte do pressuposto de que temos experiências estéticas com o design e fazemos julgamentos estéticos sobre esses objetos projetados. A questão que se impõe então, e a qual a autora pretende responder, é como essas experiências e julgamentos diferem das que temos em relação aos outros objetos e mesmo em relação à natureza.

Para responder a essa questão Forsey divide o livro em 5 capítulos e uma conclusão. No primeiro capítulo ela fornece uma ontologia do design que procura distingui-lo da arte e do artesanato (craft). Forsey também procura demonstrar a especificidade do design quando comparado à arte. Para tanto, ela desenvolve os argumentos de duas das mais importantes tradições estéticas da arte: o formalismo e o expressionismo. A conclusão de Forsey é da impossibilidade de reduzir o design a estas duas formas de estética. Então, Design é essencialmente funcional, destinado a ser usado mais do que contemplado. É distinto da arte por sua necessária reprodutibilidade e discrição. Podemos apreciar os objetos projetados para nosso cotidiano sem a necessidade de sabermos o nome, ou nomes, daqueles que os projetaram. O design, ao contrário da arte, goza de uma certa familiaridade conosco. Ele possui também uma quididade própria, ou seja, qualidades essenciais distintivas. As propriedades, que caracterizam o design como um fenômeno único, indicam que, como candidato à avaliação estética, ele necessita de uma atenção especial e diferenciada.

Os capítulos 2 e 3 aprofundam a questão sobre a constituição da experiência estética. Neles Forsey investiga especialmente duas escolas filosóficas tradicionais no pensamento estético. A primeira é a que afirma que a essência da beleza é uma propriedade residente nos objetos e a segunda que se trata de nossas respostas prazerosas a esses objetos; ou seja, uma objetiva, sensibilizada no objeto; a outra subjetiva, sensibilizada no sujeito. Forsey irá rejeitar as duas soluções procurando uma experiência estética que a situe como parte integrante da atividade do próprio julgamento estético. Para defender essa via de investigação Forsey se apoia na teoria kantiana do julgamento estético.

A filosofia de Kant é bem complexa. Compreender sua teoria do juízo estético exige relacioná-la com o todo de sua filosofia. Então a autora dedica mais da metade do segundo capítulo para essa função, utilizando o final do capítulo para a exegese do conceito de juízo estético propriamente dito. Terminada essa questão, a autora desenvolve no capítulo 3 a questão fundamental do julgamento da beleza e aqueles que são específicos para o design. Aqui é o momento forte da teoria de Forsey, no qual a noção kantiana de “beleza-dependente” (pulchritudo adhaerens) é manejada com muita inteligência e sustentada por fortes argumentos, cujo objetivo é a construção de um modelo diferencial para o julgamento estético do design. Com essa noção pode-se compreender melhor nossas experiências estéticas específicas com o design.

Forsey se enquadra dentro de certas leituras muito recentes acerca da estética de Kant. Trata-se de leituras polêmicas, mas que tem tido enorme repercussões e aderência em importantes comentadores da obra kantiana. Especial destaque nesse sentido cabe a Paul Guyer (3), o qual tem levantado questões que permaneceram escondidas no debate sobre a filosofia de Kant; em especial a questão da beleza pura e beleza aderente. Guyer atribui a Kant o ponto de vista de que a utilidade é uma condição necessária e importante para o julgamento da beleza dos objetos que possuem usos e funções. Segundo o autor: “A adequação da aparência de um objeto ao seu pretendido uso é uma condição necessária para ajuizar o objeto como belo [...] a adaptação ao uso deve ser entendida como uma condição necessária, embora não suficiente, para a beleza em qualquer objeto que tenha uma função utilitária” (4).

Com os três primeiros capítulos, Forsey desvela o design e sua estética em relação íntima com uma certa tradição filosófica (kantiana) e dessa forma contribui para o debate contemporâneo sobre o “estado da arte” dos debates sobre a estética do cotidiano.

No capítulo 4 Forsey realiza uma reflexão sobre o design no contexto do novo campo de estudo da estética do cotidiano. Inicialmente tratando o design como um objeto subsumido nesse campo, para em seguida, distingui-lo de outros objetos, eventos e fenômenos estéticos presentes nesse campo.

A Estética do cotidiano procura tornar visível a beleza e o significado daquilo que é mundano e familiar, presente em nosso habitar e relacionamentos do dia a dia. É nesse olhar que Forsey procura enquadrar e desenvolver uma teoria do design. A Estética do cotidiano procura ampliar as categorias e metodologias tradicionais dessa disciplina com o objetivo de compreender as peculiaridades dos objetos e experiências da cotidianidade. Para tanto, ela realiza uma crítica do alcance da estética tradicional, especialmente aquela que tem na arte o seu principal paradigma e não consegue compreender as pequenas experiências estéticas que todos temos em nosso dia a dia. Nesse campo de estudo, Forsey contribui questionando dois procedimentos comuns em vários autores da estética do cotidiano. O primeiro, segundo Forsey, é a falta de um embasamento na tradição filosófica, o que torna a maioria dos argumentos enfraquecidos e uma tendência ao descritivo da experiência e não a sua fundamentação. O segundo, é a forte dependência da dimensão ética e moral na estética do cotidiano. Como o escopo da experiência estética se amplia em múltiplas formas no cotidiano, essa experiência para ganhar validade deve ser iluminada por uma postura ética. Assim, a estética deve necessariamente ser avaliada por suas consequências éticas ou seja para a maioria das pessoas envolvidas na experiência que, assim, deixa de ser simplesmente subjetiva e torna-se também coletiva. Forsey, porém, questiona esse necessário vínculo entre estética e ética. Seguindo Kant, ela pensa na autonomia do juízo estético. Pode-se sempre relacionar o juízo estético com a ética, porém nunca fundá-lo sobre outra perspectiva que não a sua própria autonomia. Assim, em contraste com a maior parte das teorias da estética do cotidiano, Forsey mostra que a sua teoria do design, fornece um modelo para uma estética do cotidiano, que tem significado direto para a vida humana e não necessita ser mediada por meio de teorias morias ou existenciais. Segundo a autora, nós não entendemos os aspectos das coisas importantes para nossa vida  quando não conseguimos percebê-los. O design até agora foi escondido de nosso olhar teórico por causa de sua simplicidade e familiaridade, e a teoria de Forsey procura torná-lo visível.

Embora seja interessante o ponto de vista de Forsey sobre a autonomia do juízo estético, vejo com muitos bons olhos a fundamentação da experiência estética do cotidiano em valores éticos. A ampliação do escopo da filosofia estética realizada pelo campo da estética do cotidiano têm suas raízes na segunda metade do século 20 quando houve um renovado interesse pela reflexão estética sobre as relações entre sujeito e meio-ambiente, seguida pela exploração das artes populares consideradas até então como produtos degenerados da indústria cultural e da sociedade de massas. A estética do cotidiano continuou ampliando o escopo das reflexões filosóficas sobre a estética, incluindo objetos, eventos e atividades que constituem o cotidiano das pessoas. Podemos considerar esse aumento do escopo como não somente uma virada e renovação na reflexão estética, mas também como uma restauração das reflexões estéticas anteriores aos finais do século 18 e inícios do século 19, quando a arte se tornou o grande e quase único paradigma da experiência estética. A estética do cotidiano não somente amplia o escopo dos objetos subsumidos ao seu campo de estudos, mas também introduz questões teóricas e categorias estéticas que não receberam a devida atenção da estética tradicional clássica cujo paradigma é a arte ocidental. Nesse sentido, parece-me não somente interessante, mas fundamental, voltar a uma tradição que vincula a experiência estética e a experiência ética. Uma das principais questões da estética do cotidiano é o fato de ser orientada para a ação, diferente do predomínio da dimensão contemplativa e desinteressada da estética tradicional.

Como a própria autora assinala em sua conclusão, ainda falta explorar uma ampla gama de problemas nos quais o design necessariamente está vinculado. Como exemplo, a questão da dependência do design das forças do mercado e a maneira pelas quais essas forças podem influenciar e mesmo determinar nossas respostas estéticas ao design. De qualquer forma, considero o livro de Forsey uma importante contribuição para o debate de uma estética filosófica do design, tornando-se bibliografia obrigatória para aqueles que se aventurem nesses caminhos do pensamento.

notas

1
LEDDY, Thomas. The Extraordinary in the Ordinary: the Aesthetics of Everyday Life. Peterborough, Broadview Press, 2012.

2
MARGOLIN, Victor; resenha crítica do livro “Aesthetics of design by Jane Forsey”. The Review of Metaphysics, v. 68, n. 3, mar. 2015, p. 657-658.

3
GUYER, Paul. Kant and the Claims of Taste. Cambridge University Press, 1997; GUYER, Paul. Beauty and Utility in Eighteenth-Century Aesthetics. In: Eighteenth-Century Studies, vol. 35, n. 3, 2002, p. 439-453.

4
GUYER, Paul. Beauty and Utility in Eighteenth-Century Aesthetics (op. cit.), p. 448.

sobre o autor

Eduardo Cardoso Braga é professor do Centro Universitário Senac na área de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design. Líder da linha de pesquisa em Comunicação na mesma Instituição. Possui graduação e licenciatura em Artes Plásticas (FAAP); Bacharelado em Filosofia (USP); mestrado em Filosofia (USP) e doutorado em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Pesquisador em estética filosófica; estudos pós-coloniais e filosofias e estéticas biopolíticas.

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