Seu navegador está desatualizado.

Para experimentar uma navegação mais interessante, recomendamos que você o atualize clicando em um dos links ao lado.
Todos são gratuitos e fáceis de instalar.

 
  • em vitruvius
    • em revistas
    • em jornal
  • \/
  •  

pesquisa

revistas

drops ISSN 2175-6716

sinopses

português
Artigo pretende despertar para um primeiro passo no reconhecimento de novo terreno de pesquisa da autora Claudia Levy. Tratam-se de três sombras: a Revolução Russa, a escola Vkhutemas e por fim, a artista soviética Varvara Stepanova.

como citar

LEVY, Maria Cau. Varvara Stepanova e a escola soviética Vkhutemas. Drops, São Paulo, ano 18, n. 127.04, Vitruvius, abr. 2018 <http://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.127/6944>.


Varvara Stepanova, 1923
Imagem divulgação


Varvara Stepanova (1894-1958) foi uma grande artista e pensadora construtivista soviética. Mais conhecida como designer, compôs a cadeira de professora de design têxtil nas oficinas regulares da escola russa Vkhutemas, em Moscou. Artista em sua completude e interdisciplinaridade também foi pintora, fotógrafa, tipógrafa, ilustradora, cenógrafa e estilista. Foi uma das principais figuras do movimento artístico-político revolucionário russo, que repercutiu no caminho da arte, arquitetura e design industrial do mundo.

Colaborou com conhecidos artistas homens como El Lissitzky, Vladmir Mayakovsky e principalmente Aleksandr Rodchenko, seu companheiro. O fato de ser parceira do internacionalmente conhecido artista, fez com que sua história tenha sido achatada para esse cargo. Muito pouco se lê e sabe sobre ela, sendo a maioria do material encontrado nas biografia do próprio Rodchenko.

Os pensamentos de Stepanova são revelados em sua intrigante obra (imagens de alguns de seus trabalhos acompanham este artigo), revelando seu espírito crítico vanguardista. Destaca-se sua atuação como designer de padrão, juntamente com Lyubov Popova, que dividiam a cadeira de design têxtil na Vkhutemas. Juntas, de 1923-1925,  trabalharam como designers na Tsindel (Primeira Fábrica Têxtil do Estado), criando o acervo ímpar do design têxtil soviético, iniciando principalmente a abstração geométrica na criação de padrões, acreditando no design como ferramenta de educação, informação e arte. Influenciaram uma geração de artistas construtivista europeus, como Sonia Delaunay, Victor Vasarely, entre outros. Juntamente com Nadezdha Lamanaova, em seu trabalho de design de vestuário, batalharam pela “roupa sem gênero”, discutindo o fim do sexismo e o processo industrial de produção e sustentabilidade no vestuário. Seu pensamento sobre o artista e o desenho engajado na produção industrial se esclarece na seguinte passagem:

“Me perguntam pelo desenho. Qual o papel do desenho no projeto industrial de bens de consumo na construção do socialismo? Que o uso do produto seja democrático, igualitário na demanda e oferta, numa vivência diária adequada pelos esforços comunais na construção do socialismo. Em que linhas projetar? O desenho de produtos deve abraçar as idéias do futuro, antecipar necessidades e soluções na prática do uso, determinando o consumo pela qualidade, atemporalidade e funcionalidade, educando e restringindo. Um talher deve durar 100 anos. No desenho gráfico da estampa a comunicação e ensino devem ser valorizadas acima de tudo, construindo informação. O desenho de estampa deve conduzir as novas representações da vida e da arte pelas linhas construtivistas para os olhos de todos, uma nova visão de um novo acontecimento.

A beleza já não é objetiva, a proposta é da nova figura, calculada, tecnológica, industrial, para a construção material de novas vivências. É o desenho construtivista, representando para todos.”

Viva o construtivismo (1).

Infelizmente pouco de seu pensamento pode ser lido, sendo as pesquisas sobre a artista - assim como de suas outras companheiras e companheiros -  escassas em nosso universo acadêmico. Os traços que restaram de sua história, e principalmente sabendo o momento histórico que se inseriu, a Revolução Russa, não condizem com o papel de parceira de Rodchenko, ao qual lhe foi atribuído. Pois afinal, o papel da mulher para o Estado Soviético - que se sonhava - era de igualdade em relação ao homem, e de liberdade. A libertação feminina e o amor livre eram parte do projeto socialista de revolução (2). Sendo Varvara uma pensadora, artista e ativista da época, merecendo uma grande atenção para além de seu papel de companheira de um reconhecido artista homem.

Vkhutemas

A Vkhutemas ou Ateliês Superiores Técnico-Artísticos Estatais foi a escola de artes integradas fundada em 1920, berço da vanguarda soviética. Quando abriu tinha cerca de 1500 alunos, incluindo pessoas de baixa renda, sendo que ⅓ eram mulheres. O único pré requisito para se inscrever no curso era a alfabetização para realizar a matrícula. A irmã europeia da Vkhutemas, que muito com ela aprendeu e se espelhou, é a escola alemã muito conhecida, a Bauhaus. Fundada em 1919 com 150 alunos era composta por principalmente homens da elite alemã e austríaca, com a maioria dos cursos interditos para mulheres - como o de arquitetura por exemplo. Para as mulheres eram destinados os ateliês aplicados, como tecelagem por exemplo (3).

A Svoma era o curso preparatório de 2 anos, currículo dos Ateliês Nacionais de Ofícios Livres e Artes de Moscou, que foi incorporada e ampliada no surgimento da Vkhutemas (a partir da fusão de três principais cursos estatais de artes existentes). Walter Gropius visitou Moscou em 1918, e sabe-se que a criação do destacado Vorkurs,curso preliminar da Bauhaus teve seu espelhamento na Svoma. O desejo defendido por Gropius de unir o desenho do projeto aos meios produtivos como uma união entre arte e técnica, enquanto proposta pedagógica de produção voltada para a indústria - design -  já era uma premissa da vanguarda soviética.

Grade da Vkhutemas

Curso preparatório (Svoma)

Superfícies
Cores
Propedêutica: Volume
Propedêutica: Espaço
História da Arte

Oficinas regulares

Arquitetura
Projeto de Cores e Diplomação Propedêutica
Trabalho em Metal
Trabalho em Madeira
Têxteis
Cerâmica
Artes Gráficas
Pintura (Cavalete, Decorativa e Monumental)
Escultura

Muito da nossa escola de arquitetura ocidental e o formato do nosso ensino, se deve à vanguarda soviética e aos artistas revolucionários(as) que se propuseram a desenhar uma nova sociedade e principalmente repensar o papel do arquiteto e designer. Mesmo que tenha tido um curto espaço de tempo de existência e prática, e apesar da escassez de recursos vivida pela URSS, vivemos o eco desse movimento / utopia com muita força em nossa formação, e pouco lhe creditamos e estudamos.

Sabe-se que Varvara Stepanova teve um papel importantíssimo enquanto artista e teórica da revolução (política, econômica, social e cultural), passo inicial importantíssimo para a definição de novos paradigmas de uma nova sociedade que emergia e se desenhava (4). Apesar dos poucos estudos ocidentais em torno da Revolução Russa, principalmente às mulheres que dele faziam parte ativamente, sabemos que existiu um efervescente caldeirão vanguardista, igualitário e social, que mesmo hoje, um século depois, nos fazem saltar os olhos tamanha a atualidade.

notas

NE - Publicado originalmente na revista Arquitetas Invisíveis edição #2 “Nas Sombras”.

1
LAVRENTIEV. Alexander. Aleksandr Rodtchenko: Experiments for the Future, Diaries, Essays, Letters and other Writings. Moma, 2005. Publicado originalmente na Lef 2 de abril-maio de 1923. Traduzido por Celso Lima.

2
GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e Revolução:política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936. São Paulo, Boitempo, 2014.

3
LIMA, Celso. Vkhutemas: Usina do Moderno. Disponível em <http://celsolima.zip.net/arch2015-03-22_2015-03-28.html>

4
KIAER, Christina. Imagine No Possessions: The Socialist Objects of Russian Constructivism. The MIT press, 2005.

sobre a autora

Maria Cau Levy é arquiteta e artista formada pela FAU Mackenzie em 2013. Parte do coletivo Goma Oficina Plataforma Colaborativa, desenvolve pesquisa artística nas áreas de estamparia, geometria e semiótica.

Varvara Stepanova, Design têxtil, 1922-24
Imagem divulgação

Varvara Stepanova, Circle Points—Teal and Orange, 1923. Estampa têxtil para produção em massa
Imagem divulgação

 

comentários

jornal


© 2000–2018 Vitruvius
Todos os direitos reservados

As informações são sempre responsabilidade da fonte citada