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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Artigo avalia o fenômeno de esvaziamento do centro de Campinas, através da análise da vacância, como parte da construção contemporânea dos espaços urbanos no Brasil. Está relacionada à formação dispersa da cidade reforçada pelo planejamento urbano.

english
This article analyzes the phenomenon of emptying the centre of Campinas-SP, through the analysis of vacancy, as part of the contemporary construction of urban spaces in Brazil. This related to disperse formation of the city reinforces by urban planning.

español
Artículo se analiza el fenómeno de vaciar el centro de Campinas, a través del análisis de vacante, como parte de la construcción de los espacios urbanos en Brasil. Relacionase con dispersa formación de la ciudad reforzada por la planificación urbana.


how to quote

CARTY, Carolina Gabriel; MAIA COSTA, Luiz Augusto. Vacância como materialização do processo de dispersão urbana. O centro histórico de Campinas, 2005-2014, um estudo de caso. Arquitextos, São Paulo, ano 17, n. 204.05, Vitruvius, maio 2017 <http://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.204/6561>.

Este artigo trata do fenômeno contemporâneo de esvaziamento das áreas centrais das cidades, o qual é observado em diversas cidades do mundo. Essa dinâmica urbana de esvaziamento dos centros urbanos é resultante de recentes mudanças sociais, como também de políticas urbanas no controle do território. Portanto, assumiremos nesse ensaio que a formação e reconfiguração do espaço urbano são frutos das mudanças nas relações entre política, economia, cultura e tecnologia então verificadas.

A partir dessa visão de construção social do espaço urbano, iremos analisar como esse fenômeno se comporta, de modo progressivo, no território metropolitano da cidade de Campinas, tendo como recorte espacial seu centro histórico em dois momentos: 2005 e 2014.

Para tal análise do processo de esvaziamento do centro de Campinas, primeiramente utilizamos alguns dados constante no artigo “Patrimônio arquitetônico das cidades paulistas: a preservação como questão de urbanismo”, da autora Maria Cristina Schicchi (1), e, posteriormente, em 2014, atualizamos tais dados, relacionados ao esvaziamento ocorrido, através do método de pesquisa in loco.

Definição de vacância

Historicamente, o termo vacância surge do conceito de vazio urbano, que corresponde a espaços vagos, ou seja, sem uso e sem edificação em meio à malha urbana constituída. O vazio urbano ocorre como resultado do crescimento urbano, que, não controlado pelo poder público, permite que a iniciativa privada construa espaços urbanos de seu interesse, deixando entre os novos loteamentos e a área urbana constituída espaços vazios de lotes e glebas remanescentes. Essas áreas vazias passam a ser comercializadas somente quando o avanço da infraestrutura ocasiona a valorização, gerando um processo especulatório (2). Esse processo de especulação da terra gera custos de implantação de infraestrutura, que permite que o investimento público seja convertido na valorização de áreas privadas, como também pressiona o mercado no aumento dos preços das terras. Assim, uma parcela da população é excluída do acesso à terra, ou levada a adquirir terras mais baratas nas regiões mais afastadas, onde a infraestrutura é precária.

Observando o fenômeno dos vazios urbanos e suas consequências, na década de 1960, no Brasil, surgem questionamentos relacionados aos problemas fundiários urbano, passando a levantar o conceito de função social da propriedade. O marco do debate sobre a questão fundiária urbana no Brasil foi no governo do Presidente João Goulart com as Reformas de Base. O Seminário de Habitação e Reforma Urbana de 1963 levanta o debate sobre os problemas habitacionais brasileiros, quando coloca a função social como um conceito de combate à especulação imobiliária e dos problemas de acesso à terra no Brasil (3). Segundo o jurista José Afonso da Silva (4), a função social da propriedade é um elemento qualificante da terra, que determina como o bem deve ser adquirido ou utilizado, tendo em conta uma demanda coletiva em detrimento dos interesses pessoais. Portanto, o vazio urbano passa a ser um elemento que não contribui para o suprimento de uma demanda coletiva, logo, o termo passa a ser associado ao distanciamento da propriedade vazia com a função social da cidade.

As mudanças econômicas da segunda metade o século 20 propiciaram a formação de novos tipos de vazios urbanos, esses relacionados ao não cumprimento da função social. As mudanças econômicas e tecnológicas então ocorridas resultaram no abandono de espaços edificados relacionados ao modo de produção fordista. A “Terceira Revolução Industrial” tornou esses espaços obsoletos por não possuírem estrutura capaz de abrigar novas tecnologias, e estes acabam por serem abandonados. Essas edificações vazias, geralmente se localizam em áreas valorizadas, que com o preço alto da terra não foram reapropriadas pelo mercado imobiliário, levando ao abandono e à degradação. Nos Estados Unidos, esse tipo de vazio urbano passa a ser nomeado de brownfield ou wasteland. Grande parte deles é formada por: leitos ferroviários antigos, galpões e edifícios fabris, os quais, obsoletos, não permitem sua apropriação para novos usos (5).

No Brasil, observamos também esse fenômeno, cujo termo para espaços edificados vazios ou abandonados passa a ser a palavra “vacância”, que remete ao sentido daquilo que ficou vago. Assim, como em outros países, esses vazios construídos estão diretamente ligados às alterações econômicas, tecnológicas, política e culturais em curso. Em destaque, mudanças do modo produtivo e de consumo, como também a liberdade do setor imobiliário na construção de novos espaços urbanos.

A vacância imobiliária funciona como um índice urbano. Para o poder público pode significar uma inadimplência em relação à taxa de impostos ou uma subutilização da infraestrutura implantada. Para o setor privado, serve como um indicador do direcionamento de investimentos. O índice de vacância imobiliária é a relação entre os espaços edificados vazios e o total de espaços edificados em uma determinada área, podendo ser medido por unidade ou por metro quadrado, como também, pode ser separada por tipo de uso: residencial, comercial ou industrial. Existe uma porcentagem de vacância considerada como um ”índice natural“, por volta de 7%, associada à rotação de mercado (6).

Concluímos, portanto, que a vacância está relacionada com diversas questões. No âmbito tecnológico vemos que os edifícios obsoletos não possuem infraestrutura adequada para abrigar novas atividades, assim esses espaços acabam sendo abandonados. Na questão econômica, vemos como essa transforma o espaço urbano. Raquel Rolnik (7) observa que na metrópole paulista existe uma incompatibilidade desses antigos edifícios centrais com as atividades atuais de comércio, tronando os edifícios dos centros históricos obsoletos para a atividade principal que abriga.

No âmbito social e político, vemos que o planejamento urbano, na cidade de Campinas, aponta para um favorecimento do crescimento das dimensões espaciais da cidade que por sua vez está relacionada com a dispersão urbana, que por consequência propicia a formação de vazios urbanos, de novas centralidades relacionadas aos interesses imobiliários e ao poder do capital na formação de grandes centros comercias nas áreas periféricas da cidade (8).

Todos esses pontos consolidam a formação da vacância nas áreas centrais, criando um estoque de edifícios vazios, subutilizados e abandonados na área urbana de melhor infraestrutura, conformando uma contradição frente à função social da cidade.

A vacância em Campinas

Recorte espacial

Campinas é o núcleo da Região Metropolitana de Campinas. Atualmente, a cidade ocupa uma área de 794,4 km2, sendo 388,9 Km2parte do perímetro urbano, e 407,5 km2, área rural (9). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (10), a população estimada em 2014 é por volta de 1,154 milhões de habitantes.

O recorte espacial definido como área de estudos é o centro da cidade de Campinas, portanto, mostra-se necessário definirmos a expressão centro da cidade. Refere-se ao espaço urbano que concentra as atividades relacionadas à sociedade que habita esse núcleo, podendo ser essas atividades: religiosas, políticas, administrativas e comerciais. Através da hierarquia social, as classes com maior poder socioeconômico se aproximam dos centros de acordo com a qualidade do espaço que habitam e a melhor forma de deslocamento para esse centro, gerando uma relação de tempo e espaço e de concentração e dispersão.

“No interior da cidade, o centro da cidade não está necessariamente no centro geográfico, e nem sempre ocupa o sítio histórico onde esta cidade se originou, ele é antes um ponto de convergência/divergência, é o nó do sistema de circulação, é o lugar para onde todos se dirigem para algumas atividades e, em contrapartida, é o ponto de onde todos se deslocam para a interação destas atividades aí localizadas com as outras que se realizam no interior da cidade ou fora dela. Assim, o centro pode ser qualificado como integrador e dispersor ao mesmo tempo” (11).

Observando a citação acima, vemos como o processo socioespacial de transformação do centro ao longo do tempo se caracteriza pela função social que essa centralidade representa, de forma a se alterar através desse fluxo de concentração e dispersão. Assim, quando nos referimos ao centro de uma cidade estamos apontando para seu núcleo socioeconômico. São nessas áreas que encontramos reunido uma gama de atividades econômicas, culturais e políticas. Por isso, essas regiões centrais estão denominadas por diversas nomenclaturas: centro antigo, centro histórico, centro tradicional, centro principal, núcleo central ou centro.

Centro Principal, núcleo central ou simplesmente centro se designa a área que possui uma relação de centralidade com todo o espaço urbano, observando uma articulação do espaço de concentração de atividades central com o restante da cidade (12). Já o Centro Tradicional se caracteriza por uma parte da região do centro o qual tem uma formação mais antiga. Isso acontece quando existe um deslocamento de atividade central para outras áreas desse tecido urbano já constituído, ou seja, uma expansão desse centro, sendo essa parte mais antiga nomeada de centro tradicional. Quando ocorre essa expansão, a nova centralidade somada ao centro tradicional passa a ser nomeada como centro expandido.

O centro tradicional se aproxima do significado de centro histórico ou centro antigo, quando este abriga o local de origem da cidade ou edificações de relevância histórica, isto é, sua centralidade inicial. Assim, o centro histórico também desempenha uma função simbólica, apresentando o contexto de uma memória coletiva (13).

No momento atual, os centros, devido as transformações que temos observado das cidades em consequência dos processos de expansão e dispersão territorial, têm passado a se relacionar não somente ao núcleo de uma cidade, mas a um aglomerado de cidades, as regiões metropolitanas. Assim a centralidade passa a ser múltipla. O dinamismo econômico internacional passa a gerar uma competitividade entre os diversos núcleos localizados nas Regiões Metropolitanas, ressaltando as características de cada polo de centralidade, o que torna, na contemporaneidade, muito importante compreender o papel do centro no contexto urbano regional (14).

Observadas as definições colocadas nesse texto e a atual configuração urbana de Campinas, notamos que seu centro se relaciona com a definição de centro tradicional. Houve a formação de um centro expandido no entorno da área central, que se apropriou de parte dos bairros Cambuí, Botafogo e Bosque, sendo o bairro Cambuí relacionado à atividades comerciais para as classes de alta renda. Ainda, o centro de Campinas possui uma forte concentração de atividades que o relaciona a uma centralidade Metropolitana. Observando a visão histórica, segundo Luiz Cláudio Bittercourt, “o Centro histórico de Campinas é um objeto cuja complexidade transcende o universo do visível imediato”... “para além das fronteiras espaciais” (15). O apelo de conservação vai além da institucionalização da lei, o centro se configura como o espaço de memória coletiva tanto em seus edifícios quando em sua estrutura urbana, assim se caracterizando também como um Centro Histórico.

Dessa forma, o presente artigo concentrou a pesquisa na porção do centro histórico de Campinas, tendo como perímetro delimitador das as áreas as seguintes ruas: Anchieta, Irmão Serafina, Morais Sales, Viaduto Vicente Miguel Cury, Vinte de Novembro, Lidgerwood, Dr. Ricardo e Barreto Leme.

Centro de Campinas, localização do recorte espacial adotado como centro histórico de Campinas
Imagem de satélite do aplicativo Google Earth [Mapa do centro de Campinas: CARTY, Carolina Gabriel, 2014]

Dados da vacância no centro de Campinas

Para compreendermos o processo de vacância do centro histórico de Campinas, foi analisado esse centro em dois momentos: 2005 e 2014. Para obter os dados de 2005, recorremo-nos à pesquisa publicada por Maria Cristina Schicchi (16). No segundo momento, utilizamos uma pesquisa de campo para atualizar os dados de 2005. Para isso, contamos com o método de apreensão de dados baseada no mapa cadastral da cidade, nas imagens de satélite dispostas pela empresa Google através de sua página digital www.google.com com o uso do aplicativo Google street, somados às visitas in loco, realizadas durante os meses de julho e setembro de 2014.

Em ambas as análises, tanto 2005 com 2014, contabilizamos as unidades conforme o uso e a ocupação: residencial, comercial e institucional; observando que uma unidade equivale a uma numeração cadastral. Assim estabelecendo para cada momento um número total de unidades e a porcentagem de unidades por tipologia.

Quadro 1 – Quantidade e percentagens de usos dos edifícios da área estudada 2005 e 2014

A partir dos dados comparativos da tabela 1 observa-se que o papel do centro de Campinas é de concentração de comércio e serviços, atendendo a toda RMC [SCHICCHI, 2008 / CARTY, 2014]

Ressaltamos que existe uma pequena diferença no número de unidades de cada tipologia, isso pode estar relacionado à diferença de metodologia de apreensão de dados em cada momento, ou pequenas alterações ocorridas ao longo dos anos. Mesmo com as pequenas diferenças quantitativas, podemos observar que o centro histórico de Campinas se constitui predominantemente de comércios e serviços, portanto, há uma predominância da vacância nessa tipologia. Note-se que, existe uma recorrente tendência, em áreas altamente comerciais, de que quando há o abandono do uso habitacional de um edifício, esse, geralmente, é apropriado ao uso comercial ou de serviço antes de seu completo abandono (17). Dessa forma, decidimos abordar a análise da vacância comercial/serviço, dado essa ser a mais evidente.

Dados da vacância em 2005

Segundo os dados de Schicchi (18), a tabela 1 nos apresenta o total de 2.170 unidades, assim quando descartamos as unidades institucionais e residenciais, observamos o total de 1.768 unidades com uso de comércio e serviço, representando 81,52% do uso do centro de Campinas (tabela 1). Para que seja possível calcular o índice de vacância comercial, teremos como base o total de 1.768 unidades comerciais. No mapa de vazio urbano de 2005, figura 3, observamos os edifícios vagos, abandonados, demolidos e lotes vazios. Depreende-se daí que, temos o total de 126 unidades vagas, logo o índice de vacância comercial é de 7,12% em 2005.

Quadro 2 – Dados de vacância do mapa de vazio urbano de 2005 do centro de Campinas

A partir dos dados da tabela, com número total de edifícios e o de cada tipologia, é possível observar a vacância, o vazio urbano e a subutilização e sua percentagem em relação ao total de edifícios [SCHICCHI, 2008]

Também devemos observar uma questão importante, que nos fica claro no mapa de vazios urbanos da figura 3, a quantidade de unidades comerciais destinadas ao uso para serviço de estacionamento, isso aponta para uma subutilização dos espaços da área central devido ao problema de mobilidade da cidade de Campinas.

Como observado nesse artigo, o índice de 2005 se encontrava dentro do índice natural de vacância. Porém, observamos que parte do vazio urbano está ligada às áreas de pior conservação quando comparamos a figura 3 com a figura 2 do mapa de conservação dos edifícios. Possivelmente, estes edifícios que se encontram em mau estado, provavelmente, serão futuramente abandonados. Ainda podemos observar quanto à vacância, figura 3, que esta se encontrava de forma heterogênea no território. Diversos fatores são responsáveis por essa formação.Daí podemos concluir que parte do território possui um índice de vacância maior que outras áreas.

Mapa do Estado e Conservação, zonas do entorno do Viaduto Cury e da Estação da Fepasa onde a conservação dos edifícios é de pior qualidade, Campinas, 2005 [SCHICCCHI, Maria Cristina, 2008]

Mapa de vazio urbano do centro de Campinas, 2005 [SCHICCCHI, Maria Cristina, 2008]

Dados da vacância 2014

Observando o recorte espacial descrito nesse artigo como centro histórico de Campinas em 2014, contabilizou-se o total de 2.294 unidades; dentro desses, temos o uso de ocupação de 83 unidades institucionais e 258 unidades residenciais. Assim observamos, na tabela 1, que o centro de Campinas em 2014 constitui-se por 85,14% de comércio e serviços com o total de 1.953 unidades.

Quadro 3 – Dados de vacância do mapa de 2014 do centro de Campinas

A leitura dos dados apresentados nos permite observar a vacância, o vazio urbano e a subutilização, bem como as suas percentagens em relação ao total de edifícios [CARTY, 2014]

Quanto aos dados de vacância, resultado das visitas de campo, contabilizou entre vazios urbanos (lotes vagos), edifícios vagos e edifícios abandonados o total de 205 unidades, correspondendo a um índice de 10,59% de vacância, ou seja, acima do índice considerado natural de vacância. Na tabela 3, podemos observar esses dados relacionados ao total de edifícios de uso de comércio e serviço e as proporções que representam os edifícios vagos, abandonados e vazios urbanos.

Também levantamos o dado de unidades utilizadas para serviço de estacionamento, no qual se observa uma grande quantidade de unidades com esse uso, apresentando um total de 5,27% em relação ao total de unidade. Como visto anteriormente, esse tipo de uso pode ser considerado uma subutilização, apontando para um contínuo problema de mobilidade na cidade de Campinas.

Na figura abaixo. podemos observar de modo geral como a vacância se comporta no centro de Campinas. A partir desse mapa foram desenhado outros mapas para a análise mais profunda sobre o fenômeno.

Mapa de vacância do centro de Campinas, 2014 [CARTY, Carolina Gabriel, 2014]

Considerações finais

Após analisar cada momento de vacância em Campinas, em 2005 e 2014, utilizamos os dados para fazer um comparativo e observar a progressão de esvaziamento do centro de Campinas. Entretanto, lembramos que as metodologias adotadas em cada trabalho são distintas, o que pode estar relacionado à diferença de unidades observada em cada ano, porém não podemos descartar mudanças ocorridas nesse período, por isso observaremos diante da proporção por porcentagem. Faremos algumas observações dos resultados que colocam em perspectiva algumas questões em comum vistas nos dois momentos de análise.

Quadro 4 – Dados retirados dos mapas de vazio urbanos de 2005 e de vacância de 2014 do centro de Campinas

Na tabela, observa-se a vacância, o vazio urbano e a subutilização e sua percentagem em relação ao total de edifícios [SCHICCHI, 2008 / CARTY, 2014]

Assim, observando a tabela 3 com os dados de vacância de 2005 e 2014, notamos que nos dois momentos vemos um centro de Campinas caracterizado pela predominância do uso de ocupação de comércio e serviços, mostrando por porcentagem que esta ocupação ocorre em mais de 80% das unidades nos dois momentos. Notamos ainda que existe uma diferença de 3% menos tipologias residências em 2014, ou seja, também um esvaziamento de residências nesse centro.

Quanto à vacância comercial, considerando apenas os edifícios vagos e abandonados e lotes vazios, em 2005, vemos um índice de 7,12%, dentro do natural. Todavia, esses números passam para 10,59% em 2014, apresentando uma vacância elevada, acima do considerado natural, resultando, portanto, numa consolidação do processo de esvaziamento do centro de Campinas.

As autoras Caiado e Pires (19) também observaram este processo de esvaziamento, porém em um território maior. As autoras fizeram uma análise sobre o crescimento da Região Metropolitana de Campinas, dividindo-a em vetores orientados pelas rodovias e conexões intramunicipais mais o núcleo metropolitano. Concluíram que houve um crescimentoem todos os vetores, exceto o núcleo metropolitano, esse teve, entre 1999 e 2003, um esvaziamento médio de 0,52% ao ano. Assim, o resultado obtido por Caiado e Pires (20) reforça o resultado encontrado nesse texto. No caso aqui analisado, notamos que no centro de Campinas, entre 2005 e 2014, houve um esvaziamento médio de 0,39% ao ano, configurando o processo de esvaziamento.

Outra questão a ser posta em perspectiva é o uso de unidade para serviço de estacionamento. Percebemos que esse tipo de serviço não requer nada além de um lote vazio, o que nesse caso podemos considerar, principalmente em uma área tão adensada da cidade, que esse tipo de uso da terra se constitui como uma subutilização do solo urbano, como também notar um uso intenso do automóvel como meio de transporte. Assim, se somarmos aos imóveis subutilizados as unidades de estacionamentos, encontraremos, em 2005, um índice de subutilização de 11,58% comercial. No caso de 2014, vemos que houve uma redução no número de estacionamentos, que, somados aos imóveis subutilizados, resultam em um índice de 6,55%.

Para melhor visualizarmos esse comparativo, utilizamos como base o mapa de vacância de 2014 e circulamos em preto as mesmas unidades que nos dois momentos eram utilizadas com o serviço de estacionamento e em vermelho as mesmas unidades que continuam vagas. Explicando melhor, nesse mapa circulamos os dados coincidentes com o mapa de vazio urbano do centro de Campinas de 2005. Podemos observar em vermelho as edificações vaga que também aparecem vagas em 2005, circulado em preto temos os mesmos lotes usados para estacionamento que do mapa de 2005. Notamos que em grande parte os estacionamentos se coincidem. No caso da vacância, temos destaque para os imóveis abandonados e algumas edificações, vendo que certas áreas possuem uma predominância de semelhança a 2005.

Com isso, notamos que alguns casos de vacância ou abandono têm perdurado por anos.

Mapa comparativo de Vacância, 2005 e 2014 [SCHICCHI, Maria Cristina, 2008 / CARTY, Carolina Gabriel, 2014]

Concluímos assim, que a vacância é um fenômeno resultante da produção social do espaço urbano, localizado no contexto da sociedade capitalista neoliberal. Ou seja, percebemos que a questão da vacância extrapola a problemática local e se relaciona com a complexidade das mudanças sociais conectadas à alteração do modo de produção contemporâneo. Assim, a expansão urbana e especulação imobiliária, somadas à falta de controle público desses processos, permitem o esvaziamento das áreas mais antigas da cidade, que, relacionadas às mudanças econômicas e tecnologia, se tornam espaço obsoletos.

Para entendermos tal processo em Campinas, faz-se necessário retomar a história de configuração e reconfiguração desta cidade, onde vemos como o papel da economia é importante estruturador da constituição deste território, ditando até mesmo as direções a serem tomas pelo planejamento urbano. Toda a atuação expansiva da cidade está atrelada aos interesses da iniciativa privada, ao processo de segregação espacial e ao planejamento urbano aí implantado (21).

O resultado foi um processo de Metropolização, este iniciado na década de 1970, atrelado à expansão da industrialização para o interior paulista e à implantação de infraestrutura rodoviária, iniciando um processo de expansão e conurbação da região. Dessa forma,  deu-se a dispersão territorial então observada conformando a referida descentralização mencionada, em grande parte apoiada pelo planejamento urbano aqui praticado (22).

Dessa maneira, fica claro que a vacância faz parte de uma reconfiguração espacial relacionada tanto às questões sociais como políticas decorrente do planejamento urbano. Observando ainda a relação do Centro de Campinas com sua região, vemos que a metropolização possibilitou uma migração do seu núcleo urbano para outras áreas relacionadas com a cidade de Campinas, formando um território disperso. Portanto, essa dispersão está relacionada ao esvaziamento da área central. Assim o processo de vacância demonstra extrapolar o contexto local e passa a se relacionar com a configuração espacial regional de Campinas. Com isso, podemos observar a complexidade da rede de fluxos econômicos. O processo passa a utilizar o meio urbano como forma de desenvolvimento do capital, deste modo as cidades passaram a competir umas com as outras para receberem esse fluxo de capital, dessa forma, novas centralidades passam a receber as atividades antes localizadas no centro, pois buscam se alocar onde se encontram os melhores recursos para sua reprodução, tornando os antigos centros espaços obsoletos e abandonados.

Por outro lado, a consolidação dos antigos centros como espaço obsoletos e seu abandono gradativo conforma o centro como uma área da cidade repleta de infraestrutura, porém subutilizada. Ao mesmo tempo, as classes mais baixas seguem em busca de terras mais baratas em territórios distantes e sem infraestrutura. Logo, a vacância das áreas centrais conformam vazios urbanos que não cumprem com seu papel social, permitindo tanto a falta de infraestrutura nos territórios periféricos, quanto o aumento do custo público na implantação dessa infraestrutura. Assim, é evidente a necessidade de confrontar o problema do esvaziamento dos centros das cidades brasileiras.

notas

1

SCHICCHI, Maria Cristina. Patrimônio arquitetônico das cidades paulistas: a preservação como questão de urbanismo. Arquitetura Revista, v. 4, n. 1, 2008.

2
BORDE, Andréa de Lacerda Pessôa. Percorrendo os vazios urbanos. In: X Encontro Nacional ANPUR. Anais do X ENA. Belo Horizonte, ANPUR, 2003.

3
BONDUKI, Nabil; KOURY, Ana Paula. Das reformas de base ao BNH. As propostas do Seminário de Habitação e Reforma Urbana. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 120.02, Vitruvius, maio 2010 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.120/3432>.

4
SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. São Paulo, Malheiros, 1998.

5
VASQUES, Amanda Ramalho; MENDES, Auro Aparecido. Refuncionalização de brownfields. In GERARDI, Lucia Helena de Oliveira; CARVALHO, Pompeu Figueiredo de (org.) Geografia: ações e reflexões. Rio Claro, Programa de Pós-Graduação em Geografia Unesp Rio Claro/Ageteo, 2006.

6
BOMFIM, Valéria Cusinato. Os espaços edificados vazios na área central de São Paulo e a dinâmica urbana. Dissertação de mestrado. São Paulo, Poli USP, 2004.

7
ROLNIK, Raquel. Política Urbana no Brasil. Esperança em meio ao caos? In: Revista da ANTP. São Paulo, 2003.

8
CARTY, Carolina Gabriel. Vacância no centro de Campinas e o planejamento urbano brasileiro, 1990-2014. Orientador Luiz Augusto Maia Costa. Dissertação de mestrado. Campinas, PUC-Campinas, 2014.

9
Prefeitura de Campinas. Disponível em: <www.campinas.sp.gov.br> Data acesso: 22 de maio 2014.

10
IBGE. Disponível em: <www.ibge.gov.br> Data acesso: 22 de maio 2014.

11
SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão. Centro e as formas de expressão da centralidade urbana. Revista de Geografia, v. 10, São Paulo, Unesp, 1991, p. 6.

12
SILVA, William Ribeiro da. A formação do centro principal de Londrina e o estudo da centralidade urbana. Revista Geografia, v. 12, n. 2, Londrina, 2003. Disponível em: <www.geo.uel.br/revista>. Data de acesso: 29 set. 2014.

13
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Cidade espaço e tempo: reflexões sobre o patrimônio urbano no Brasil. In: D’ARC, Hélèna Rivière; MEMOLI, Maurizio. Intervenções urbanas na América Latina: viver no centro das cidades. São Paulo, Editora Senac São Paulo, 2012.

14
FRÚGOLI JR., Heitor. A questão da centralidade em São Paulo: o papel das associações de caráter empresarial. Revista de Sociologia e Política, n. 16, Curitiba, 2001.

15
BITTERCOUT, Luiz Cláudio. Campinas centro histórico: rupturas e (des)continuidades. Oculum Ensaios, n. 2, Campinas, PUC-Campinas, 2002, p. 137.

16
SCHICCHI, Maria Cristina. Op. cit.

17
CLEMENTE, Juliana Carvalho; PASSOS, Luciana Andrade dos; SILVEIRA, José Augusto Ribeiro. Sobre vazios e valores imobiliários: uma análise do centro histórico de João Pessoa – PB. Salvador, Urbi Centros, n. 3 (morte e vida dos centros urbanos), 2012. Disponível em: <www.ppgau.ufba.br/urbicentros/2012/ST256.pdf>. Data do último acesso: 22 maio 2014.

18
SCHICCHI, Maria Cristina. Op. cit.

19
CAIADO, Maria C. S.; PIRES, Maria Conceição S. Campinas metropolitana: transformações na estrutura urbana atual e desafios futuros. In: CUNHA, José M. Pinto da (org). Novas metrópoles paulistas. População, vulnerabilidade e segregação. Campinas, NEPO/Unicamp, 2006.

20
Idem, ibidem.

21
CARTY, Carolina Gabriel. Op. cit.

22
Idem, ibidem.

sobre os autores

Carolina Gabriel Carty é graduada em Arquitetura e Urbanismo (2005) e Mestre em Urbanismo com apoio da bolsa CNPq (2014) pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Docente no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Paulista e do curso de Pós-Graduação de Arquitetura Comercial do Senac Sorocaba.

Luiz Augusto Maia Costa é Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Graduado em Filosofia pela Universidade Católica do Salvador (1991), graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (1997), Mestre (2001) e Doutor (2005) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo.

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