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architectourism ISSN 1982-9930

Uxmal, México. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Dois alienados, duas coleções de objetos acumulados, duas situações análogas não fosse um decisivo detalhe: uma delas está sobre o chão sujo de um supermercado, a outra, exposta em uma galeria de arte.


how to quote

GUERRA, Abilio. Da loucura de cada um. A exposição de uma vida e uma vida exposta. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 131.06, Vitruvius, fev. 2018 <http://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.131/6876>.


Homem ajoelhado em supermercado
Foto Abilio Guerra

Me deparo em um supermercado com um clone de Arthur Bispo do Rosário. Traja roupa feita de trapos costurados por fios grossos e coloridos que ele mesmo teceu, símile do Manto da Anunciação, com o qual o artista pretendia se apresentar a Deus no dia do juízo final. Certo que era Jesus Cristo na terra, diagnosticado como portador de esquizofrenia-paranoide, com direito a delírios, Bispo do Rosário, de imaginação prodigiosa, se tornou artista à sua revelia, pois a missão divina que se dizia incumbido – “representar os materiais existentes na Terra para o uso do homem” – é um projeto formal vigoroso, próximo de encaminhamentos artísticos contemporâneos.

Uma boa alma deixa ao sair do supermercado duas sacolas de plástico cheias de comida para o meu Arthur Bispo do Rosário; para minha surpresa e espanto, ele se ajoelha, agradece, retira um pedaço de pão, o suficiente para o instante, se levanta, vai embora, deixa para trás as sacolas como uma oferenda. Recordo que no dia anterior havia visto duas obras de Bispo do Rosário durante a montagem de uma exposição na Galeria Fiesp (1), uma delas magnífica, com peças artesanais de xadrez de tamanhos diversos, cada peça exclusiva em sua forma, as menores feitas de madeira, as maiores com saco de estopa, unidas por fios costurados, uma ao lado da outra – peões, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas –, como em um mostruário. Entendida pela curadoria como um ready made, uma “ressonância duchampiana”, a peça se chama Partida de Xadrez com Rosângela, mas uma partida paradoxal, com todas as peças inertes, aprisionadas por cordas e cordões, impossibilitadas dos seus movimentos programados. O jogo que se estabelece é outro, do xadrez sequestra a hierarquia, a interdependência das peças, o sistema cósmico que estabelecem, um mundo à parte, ordenado, igualzinho ao de Deus.

Partida de Xadrez com Rosângela, obra de Arthur Bispo do Rosário
Foto Abilio Guerra

Pago a pequena compra de poucos pacotes, saio do supermercado, o meu Arthur Bispo do Rosário está lá sentado, me atravessa com um olhar iluminado, me oferta um sorriso radiante. Não quer nada de mim, nenhum trocado, nenhum produto, não quer nada. Me dou conta que ele não precisa de nada, traz consigo o suficiente para aquele dia e todos os outros que estará na Terra. Sua roupa sagrada, que tecera com os restos de coisas inúteis, o protege de todos os riscos, de todas as ofensas, do ultraje, da vergonha. Em sua paz quieta e serena não há lugar para medo ou terror, está agasalhado, dentro de um casulo, dentro de uma casa pequenina, segura. Mais ainda, traz na cabeça um adereço na forma de capacete, também feito de restos costurados por fios grosso. Parece não se contentar em “representar os materiais existentes na Terra para o uso do homem”, prefere carregar na cabeça o próprio universo. Assim, o meu Arthur Bispo do Rosário não precisa jogar xadrez com Rosângela, comigo ou qualquer outro, seu mundo está ordenado, é seu domínio, seu território. Aturdido, ainda tenho tempo para um último olhar, não compartilhado, tento entender onde está a sanidade e onde está a loucura.

Partida de Xadrez com Rosângela, detalhe, obra de Arthur Bispo do Rosário
Foto Abilio Guerra

[10 de outubro de 2017]

notas

NA – Décima sétima publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Da loucura de cada um. A exposição de uma vida e uma vida exposta. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 131.06, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.131/6876>.

1
Exposição Ready Made in Brasil, curadoria de Daniel Rangel. Galeria de Arte do Centro Cultural Fiesp, de 10 de outubro de 2017 a 11 de fevereiro de 2018.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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