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research

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architectourism ISSN 1982-9930

Uxmal, México. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Este texto comenta uma visita a um Patrimônio Mundial na Islândia, selecionado pela Unesco por sua exuberante Paisagem Cultural e significado histórico. Convida a conhecer e refletir, ainda que de forma concisa, os motivos de reconhecimento desse sítio.

english
This paper comments a visit to a World Heritage Site in Iceland, nominated by Unesco for its exuberant Cultural Landscape and historical significance. It pursues to know and reflect, even briefly, the reasons for the recognition of this site.

español
Este texto expone una visita a un Patrimonio Mundial en Islandia, escogido por la Unesco por su exuberante Paisaje Cultural y significado histórico. Invita a conocer y reflexionar, aunque de forma sucinta, los motivos de reconocimiento de ese sitio.


how to quote

OLIVEIRA, Carolina Fidalgo de. Patrimônio mundial na terra do gelo. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 131.03, Vitruvius, fev. 2018 <http://agitprop.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.131/6873>.


A água é um dos elementos mais importantes para a vida do homem, e disponível na natureza, às vezes de forma exuberante, constitui em si um fator de atração.

A terra representa inúmeras qualidades e possibilidades. Ao longo de milênios contribuiu para a organização do homem em sociedade, suscitando as mais variadas contendas: desbravamentos, disputas, domínio de culturas e agriculturas, escaladas para as mais ricas aventuras, além de conhecidas guerras. É também, portanto, um fator de atração.

As pequenas ou grandes construções do homem, pretéritas ou modernas, materializam um lugar no espaço e dão vida a ideias e sonhos. Para seu deleite, ou representações de poder, a necessidade do homem de “empilhar pedras” também constitui um fator de atração.

Esses ingredientes, entre outros, dos quais muitos talvez só possam ser mensurados e apreciados em função de determinadas motivações e sensibilidades culturais e sociais, fazem de Þingvellir (Thingvellir) – Patrimônio Mundial enquadrado pela Unesco como Paisagem Cultural – um presente da natureza, de beleza dramática, no processo de construção da cultura, da história e memória do homem.

Vista do lado Leste do sítio da Assembleia
Foto Mats Vibe Lund [Dossiê de Proposição do Parque Nacional Þingvellir ao título de Patrimônio Mundial. Websit]

Expressa o Dossiê de Proposição (1) deste sítio islandês ao título de Patrimônio Mundial, encaminhado à Unesco em 2003 e endossado pelo International Council on Monuments and Sites – Icomos e pela International Union for Conservation of Nature – IUCN em 2004, que esse território está relacionado a eventos nacionais de vital importância para a consolidação da cultura e associado a antigos sistemas de direito e governança, o que o transforma também num centro simbólico/espiritual, consagrado em poemas, representações e variadas artes locais.

Falésias do AlÞing
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira, dezembro 2017

Thingvellir é um vale rico em rifts – fraturas tectônicas, cujas porções de terra se afastam em direções opostas – e altas falésias, que no ano de 930 d.C. constituía um magnífico cenário natural para a implantação do AlÞing (Althing), uma assembleia ou tribunal ao ar livre, que representava toda a Islândia e cujas funções se mantiveram até 1798, quando passou a exercer atividades agrícolas. Em 1928, a região do Althing foi reconhecida por legislação específica  do Icomos como parte do primeiro Parque Nacional da Islândia, tornando-se, inclusive, um dos primeiros parques europeus. A década de 1930, de fato, marca a criação dos primeiros parques nacionais pelos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil, inspirados pelo modelo norte-americano do Parque Nacional de Yellowstone, por privilegiar critérios de especial beleza paisagística.

O Parque Nacional Thingviller foi a última parada de uma daytrip fruída nos últimos dias do ano de 2017: inverno do Norte, neve, gelo e aquela sensação de renovação a caminho, incitada nessa época especial em que novas perspectivas e promessas estão nascendo junto com o ano que se anuncia. O que leva a conhecer esse parque, incialmente, são os motivos turisticamente mais conhecidos e a oportunidade de vivenciar uma beleza que não pode ser contemplada nos trópicos.

Gullfoss Waterfall
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira, dezembro 2017

Antes da chegada a esse Parque, localizado em uma área vulcânica ativa, a apenas 49 km a leste de Reykjavík, a capital da Islândia, foram percorridos aproximadamente mais 70 km para o interior do território, a fim de se conhecer outros dois importantes sítios naturais: Gullfoss Waterfall (uma das maiores, mais bonitas e estrondosas quedas d’água da Islândia) e Geysir (um fenômeno geotérmico em que o solo libera água quente por causa da diferença de pressão e temperatura em suas camadas), ambos inseridos dentro de um percurso de riquezas naturais denominado Golden Circle.

Geysir
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira, dezembro 2017

Ao longo do caminho e nas localidades escolhidas para visitação a paisagem que vai se descortinando é deslumbrante: ricamente montanhosa, tingida por todos os lados de branco por uma neve que parece frágil, mas que se mostra, na verdade, energeticamente cênica. E há também água por todos os lados; é incontável o número de cascatas e córregos com água correndo, congelada e cristalina, percorrendo caminhos retilíneos ou sinuosos, cujos contornos estão a vigiar os segredos das montanhas.

Especificamente o Parque Nacional Thingviller contempla uma área de 24 mil ha, dos quais 9.270 constituem o Patrimônio Mundial, cercada por um cinturão variado de montanhas, com campos de lava cobertos de capim e neve (dada a época do ano) e o lago Þingvallavatn, que fica no extremo sul (2).

Vista do Parque Nacional Þingvellir
Foto Carolina Fidalgo de Oliveira, dezembro 2017

Remanescentes dos antigos assentamentos
Foto Hafn Hafnfjord [Dossiê de Proposição do Parque Nacional Þingvellir ao título de Patrimônio Mundial / Websi]

De acordo com a narrativa histórica apresentada nos documentos de candidatura do Thingviller para a Unesco, muitos aspectos caracterizam a excepcionalidade desse sítio. O Althing, realçando alguns fatos para além dos aspectos naturais e geográficos, era palco de duas reuniões anuais (assembleias), que se estendiam por mais de duas semanas e foi o local onde se estabeleceram as leis da Islândia com base nos códigos medievais germânicos (Grágás), em que conflitos eram resolvidos sem um líder superior, uma vez que, conforme as explicações noticiadas, as águas oceânicas protegiam a ilha contra a invasão de grandes exércitos. Em sua longa permanência como um tribunal, o Althing não apenas foi palco para a consolidação das leis, como também da própria cultura islandesa, o que faz dele, hoje, lugar de memória na conformação da nacionalidade do país. Os resquícios desse tribunal estão em boa parte preservados no local e podem ser percorridos a pé. No interior da Paisagem Cultural do parque podem ser reconhecidos os fragmentos de cerca de 50 choupanas construídas a partir de relva e pedra. E remanescentes arqueológicos do século 10 estão ricamente presentes no subsolo, entrevendo aspectos da história ainda a ser descoberta, compreendida e admirada. O sítio histórico inclui ainda uma igreja e uma fazenda adjacente, bem como vestígios da atividade agrícola que tomou cabo na região nos séculos 18 e 19 (3).

O sítio abandonado da fazenda Skogarkot
Foto divulgação [Dossiê de Proposição do Parque Nacional Þingvellir ao título de Patrimônio Mundial / Websi]


A ideia de Paisagem é complexa e resulta do somatório de diferentes elementos e das condições pelas quais se interpolam. Envolve, por exemplo, qualidades físicas – atuais ou remotas –, as formações geológicas e geomorfológicas, aspectos hidrográficos e geográficos, o relevo, o clima, a fauna e a flora, bem como o reconhecimento das marcas históricas deixadas pelas ações dos homens (4).

A noção de Paisagem Cultural, cuja conceituação não perde em complexidade, vem sendo introduzida como um recorte – histórico e social – da Paisagem, uma vez que determinadas condições e situações humanas orientam sua leitura e compreensão, não se limitando a ideia de espaço. Para pensar a Paisagem Cultural é possível recorrer ao conceito de Rugosidade proposto pelo geográfico Milton Santos (5), como aquilo que fica ou se acumula do passado, proporcionando formas herdadas e cristalizadas e que se expressam na Paisagem. É cultural, uma vez que ela testemunha os processos de formação e sobrevivência da humanidade a partir de artefatos materiais e expressões imateriais.

Partindo de noção semelhante, este conceito começa a ser incorporado e debatido em conferências da Unesco antes mesmo da oficialização da World Heritage Convention – WHC, em 1972. Exemplifica-se, nesse sentido, o encontro ocorrido em 1962, na cidade de Paris, em que se estabelece um documento designado Recommendation concerning the Safeguarding of the Beauty as Character of Landscapes and Sites, e o emblemático encontro na cidade de Veneza, em 1964, que resultou num dos documentos mais importantes até hoje redigido sobre o tema da preservação do patrimônio, a Venice Charter. Todavia, efetivamente como um “meio” para a obtenção de um título mundial, a Paisagem Cultural é adotada pela Unesco somente em 1992, devendo a Paisagem atender aos critérios previstos nas Operational Guidelines for the Implementation of the World Heritage Convention e na própria WHC, demonstrando, principalmente, seu excepcional valor universal e respondendo às noções de autenticidade e integridade.

Assim como as concepções de Paisagem e Paisagem Cultural, os conceitos de integridade e autenticidade são igualmente difíceis e vêm suscitando debates acirrados nos meios técnicos especializados, como universidades e centros de preservação do patrimônio, e mesmo no interior da própria Unesco, onde esses conceitos são também adotados como critérios de seleção dos bens. De 1972 a 2005 a autenticidade era pensada para os bens culturais (critérios de I a VI) e a integridade estava associada aos bens naturais (critérios de VII a X). Após 1994, em decorrência das discussões promovidas por especialistas – em que se destaca a conferência na cidade de Nara, no Japão –, aos poucos esses critérios são unificados e incorporados nos documentos da Unesco, em 2005. Como Paisagem Cultural, qualquer bem cultural candidato à Lista do Patrimônio Mundial deve responder aos valores de autenticidade e integridade.

Apesar dos extensos debates, de pontos de vistas discordantes e de muito se ter avançado sobre o assunto, de um modo geral, a integridade, no entendimento da Unesco, continua associada às condições de inteireza e “intactabilidade” a fim de permitir a transmissão dos significados de um lugar. Já a Autenticidade está conexa, também segundo esta organização, à ideia de genuinidade do bem cultural e à comprovação da autoria ou da origem da obra, associada à sua materialidade.

Apenas para contextualizar, vale assinalar que ambos os conceitos são de difícil operacionalização, não podendo ser compreendidos em termos absolutos, mas em relação a outros valores e dentro do contexto cultural em que se processam.

Em Thingviller, os aspectos de integridade (6) se justificam porque este parque, segundo os documentos da Unesco, sofreu transformações geológicas e geomorfológicas bastante lentas ao longo dos séculos (as fissuras do vale se movimentaram cerca de 3 a 4 metros desde que o Althing foi fundado), sendo que a interação do homem com esse meio físico foi realizada de forma respeitosa e pouco intrusiva. Em geral, ainda segundo os documentos, a paisagem desse sítio mudou pouco desde o século 10, e mesmo os remanescentes dos edifícios mais recentes, que concernem aos séculos 18 e 19, como a igreja Þingvellir e a fazenda, respeitam os estilos tradicionais. E em função disso se justificam os aspectos de autenticidade desse território (7).

Assim, o Parque Nacional Thingvellir responde aos critérios (iii) e (vi) das Operational Guidelines, por evidenciar remanescentes arquitetônicos e paisagísticos dos assentamentos que ali foram fundados com o Althing, se estendendo até o século 18, bem como por estar associado a cultura nórdica medieval, com o estabelecimento de leis e modelo de governança, condições que puderam ser conhecidas por causa das marcas deixadas pelas sagas islandesas a partir do século 12 e reforçadas durante a luta pacífica pela independência, já no 19. Thingvellir foi o espaço das decisões políticas sobre a independência dos domínios dinamarqueses, sediando 25 reuniões somente neste período. Os vestígios dos antigos assentamentos islandeses também são notáveis porque, até onde as pesquisas puderam averiguar, retratam as primitivas formas de acolhimento em um novo território, implantadas após as primeiras viagens em mares abertos para o Norte, marcando o início do avanço europeu em direção ao novo mundo – daí também a importância das antigas comunidades vikings e seus critérios de exploração de terras (8).

Centro de apoio ao visitante
Foto divulgação [Dossiê de Proposição do Parque Nacional Þingvellir ao título de Patrimônio Mundial / Websi]

Para além das questões conceituais e técnicas que levam ao reconhecimento desse sítio como Paisagem Cultural pela Unesco, um dos aspectos que também chama muita atenção em Thingvellir é que, nesse sítio – assim como nos outros pontos turísticos visitados –, não parece haver uma cenarização planejada do lugar para atender expectativas do mercado. Não estão implantados, nesse sentido, ambientes ou “estruturas de fachada”, ou seja, instalações arquitetônicas e paisagísticas que possam ser associadas a modismos ou temas específicos. Essas decisões, por certo, também reforçam parâmetros sociais e culturais e agregam ainda mais encanto a essa Terra em que arde fogo embaixo do gelo.

notas

1
World Heritage Scanned Nomination. Documento de número 1152 <http://whc.unesco.org>.

2
Idem, ibidem.

3
Idem, ibidem.

4
DELPHIM, Carlos Fernando de Moura. O patrimônio natural no Brasil. In FUNARI, P. Paulo (org.); ett. all. Patrimônio Cultural e Ambiental: questões legais e conceituais. São Paulo, Annblume/Nepam, 2009.

5
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4a edição. São Paulo, Edusp, 2008.

6
World Heritage Nomination – IUCN. Technical Evaluantion Þingvellir National Park (Iceland) ID n. 1152 <http://whc.unesco.org>.

7
Parecer do Icomos. Documento de número 1152-ICOMOS-1333-en <http://whc.unesco.org>.

8
World Heritage Scanned Nomination. Documento de número 1152 <http://whc.unesco.org>.

sobre a autora

Carolina Fidalgo de Oliveira é arquiteta e urbanista (2003) formada pela Unesp/Bauru e mestre (2009) e doutora (2016) pela FAU USP. Atualmente é professora no curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário FIAM-FAAM e no curso de pós-graduação em Arquitetura da Paisagem do Centro Universitário Senac, unidade de São José dos Campos. Desenvolve também projetos de arquitetura e paisagismo.

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